A psicologia por trás das manifestações brasileiras


Em meio a uma enormidade de textos compostos por opiniões particulares sobre as recentes manifestações que estão abalando o Brasil, resolvi ser um pouco diferente.

Decidi procurar na literatura especializada as respostas para entender o porque de um motivo aparentemente tão banal, como o aumento de R$0,20 centavos nas passagens dos meios de transportes público, ser a faísca final responsável por gerar tamanha revolta na população brasileira.

690274Encontrei no premiado livro Rápido e Devagar: duas formas de pensar, do psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de Economia em 2002 por seus estudos na área de economia comportamental, alguns indicativos que me ajudaram a refletir sobre essa questão.

Através de uma técnica chamada Método da Reconstrução do Dia (DRM, em inglês), Kahneman e sua equipe, composta por mais três psicológicos de diferentes especialidades e um economista, convocaram uma amostra de pessoas para participarem de uma sessão de duas horas de pesquisa.

A psicologia por trás das manifestações brasileiras

Primeiro, eles pediam a elas (a maioria eram mulheres) para repassarem seu dia anterior em detalhes, separando-o em episódios, como cenas em um filme. Posteriormente, elas respondiam a perguntas sobre cada episódio e selecionavam atividades em que estavam envolvidas a partir de uma lista e indicavam em qual delas prestaram mais atenção.

Também listavam os indivíduos com quem haviam estado, e classificavam a intensidade de diversos sentimentos em escalas de 0-6 (0= ausência de sentimento; 6 = sentimento mais intenso).

A justificativa para esse método era de que se as pessoas fossem capazes de recuperar da memória em detalhes uma situação passada, também seriam capazes de reviver os sentimentos que a acompanharam, até mesmo vivenciando seus antigos sinais fisiológicos de emoção.

Os resultados não foram fáceis de coletar, visto que há muitas variantes de sentimentos positivos (amor, alegria, envolvimento, esperança, diversão…) e sentimentos negativos (raiva, vergonha, depressão, solidão…), entretanto, embora as emoções positivas e negativas existam ao mesmo tempo, foi possível classificar a maioria dos momentos da vida como positivos ou negativos separadamente.

Baseando-se nesses dados, os pesquisadores elaboraram um índice para calcular o tempo em que um indivíduo passa em estado de desagrado, ou seja, o tempo em que essas pessoas atribuíam uma classificação a um sentimento negativo mais elevado do que todos os sentimentos positivos. Esse índice foi chamado de Índice U, e era exemplificado da seguinte forma:

Se um indivíduo passar 4 das suas 16 horas do seu tempo total desperto em um estado de desagrado, este apresentaria um índice U de 25%, e assim por diante.

Uma descoberta surpreendente feita pela equipe foi referente a desigualdade na distribuição de dor emocional. Enquanto cerca de metade das pessoas pesquisadas relataram ter passado um dia inteiro sem experimentar um episódio desagradável, uma minoria, mas significativa parte da população vivenciou considerável aflição emocional durante grande parte do dia, o que fez com que os pesquisadores concluíssem que uma pequena fração da população arca com a maior parte do sofrimento – seja devido a alguma enfermidade física ou mental, um temperamento infeliz ou aos azares e tragédias pessoais em sua vida.

Essa conclusão surpreenderia ainda mais os pesquisadores quando a variável renda entrasse em cena, demonstrando que a insatisfação com determinados sentimentos negativos aumentava consideravelmente para populações que se encontravam em certos níveis de pobreza.

Um índice U também pode ser calculado por atividades, podemos medir, por exemplo, a proporção de tempo que as pessoas passam em um estado emocional negativo quando utilizam o transporte público, trabalham ou interagem com seus familiares.

Ao calcularem o índice em uma amostra de mulheres americanas e francês, os pesquisadores identificaram que ele era em cerca de 6% mais elevado nos dias úteis do que nos finais de semana, em grande parte porque nos fins de semana as pessoas passam menos tempo em atividades de que não gostam e não sofrem a tensão e o estresse associados com o trabalho.

Posteriormente, um membro da equipe de Kahneman chamado Alan Krueger, resolveu aplicar esse estudo em ampla escala, obtendo 450 mil respostas em países como Estados Unidos, Canadá e Europa.

O pesquisador identificou a partir dessa analise, que a pobreza extrema intensifica ainda mais os efeitos vivenciados com outros infortúnios da vida.

Por exemplo, a doença é bem pior para os muitos pobres do que para os que vivem com mais conforto. Uma dor de cabeça aumenta a proporção dos que relatam tristeza e preocupação de 19% a 38% para os indivíduos nos dois terços superiores da distribuição de renda.

Diferenças significativas entre os muito pobres e os outros também são encontradas para os efeitos de divórcio e solidão. Além do mais, os efeitos benéficos do fim de semana no bem-estar são significativamente menores para os muito pobres do que para a maioria dos demais.

Ou seja, sob a visão da perspectiva social, alguns fatores como a melhoria do transporte público para a força de trabalho, disponibilidade de creches para as mulheres que trabalham fora e melhoria das oportunidades de socialização para a terceira idade são exemplos eficientes de reduzir o índice U da sociedade – onde, segundo os autores, até mesmo uma redução de um por centro seria uma conquista significativa, quando somada a milhões de horas de prevenção de sofrimento.

Infelizmente, tal pesquisa não foi elaborada no Brasil, e consequentemente, nosso índice U não pode ser computado. Entretanto, não é difícil concluir que o tempo que passamos em um estado de desagrado hoje é altíssimo.

Não conseguimos enxergar resultados no uso do dinheiro arrecadados com nossos impostos; o transporte público, além de caro, é ineficiente, a falta de hospitais e creches elevam nossas preocupações em casos de prováveis doenças, às oportunidades de socialização estão cada vez mais raras, pois o perigo de sair às ruas é cada vez maior e a corrupção corre solta em praticamente todos os níveis da esfera pública.

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Soma-se isso com um custo de vida cada vez mais alto e um salário que não consegue acompanhar esse ritmo, tornando as coisas amplamente desproporcionais. É esse acumulo de infortúnios que fazem com que pequenas fontes de insatisfação ganhem proporções assombrosas, a ponto de R$0,20 centavos se tornar o motivo final responsável pelo estouro desse aterrorizante motim.

Em outras palavras, para uma população que apresenta um índice U muito alto como a brasileira, os efeitos de um revés que poderia ser trivial, acabam se potencializando. Assim sendo, se o índice de insatisfação de nossa população fosse menor, ou seja, se enxergássemos resultados nos investimentos feitos pelo governo, se não sofrêssemos com tanta corrupção e injustiças, entre outros motivos, é bem provável que esse pequeno aumento passasse despercebido.

No final das contas, o índice U computado por Kahneman e sua equipe, serve para endossar o que vem sendo a frase mais famosa e divulgada pela imprensa brasileira nas ultimas semanas: “não é somente por R$0,20 centavos”.


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