A trapaça por trás dos incentivos financeiros


trapaceiro

Sempre acreditei no esquema de incentivos que todos nós estamos acostumados, ou seja, para conseguir que alguém se comprometa com alguma coisa, dê a ela algum incentivo financeiro e tudo estará resolvido. Mas será mesmo que é assim que se resolve?

Há algum tempo atrás comecei a ler sobre alguns estudos que estão colocando fim nesse tipo de esquema. O primeiro que descrevo neste post é retirado do livro Freakomonics : O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta, nele os autores dedicam o primeiro capítulo sobre a trapaça que envolve todo esse esquema de benefícios financeiros.

A trapaça por trás dos incentivos financeiros

 

No primeiro estudo, uma dupla de economistas foi instigada a solucionar um problema bastante comum a todos os administradores de creches: fazer com que os pais dessas crianças apareçam no horário certo para buscar seu filho.

Os economistas resolveram aplicar a solução mais comum possível (e que provavelmente nós adotaríamos também), a de aplicar uma multa ($3 dólares ao dia por criança) aos pais que atrasassem um tempo superior a 10 minutos e decidiram testar sua solução em dez creches situadas em uma cidade de Israel.

Aqui no Brasil nos diríamos assim: “Quando dói no bolso as coisas se resolvem” certo? Pois veja o que aconteceu. Depois da multa, os atrasos surpreendentemente aumentaram, saltando agora para 20 por semana. Mas como isso aconteceu?

Os pais chegaram à conclusão de que não valia à pena o esforço de interromper a sua atividade (para no meio o seu jogo de squash) para buscar seu filho na creche no horário certo.

No final, quando os economistas suspenderam a multa de $3, o número de pais atrasados não se alterou. Agora, eles podiam se atrasar, não pagar multa e muito menos sentir alguma culpa.

Talvez você ache que $3 dólares é um valor baixo e que se aumentasse para $50 talvez resolvesse o problema, bom, talvez sim, mas também geraria um bocado de protestos dos pais, que poderiam até procurar outra creche para seus filhos.

O segundo estudo ocorreu no Sistema Público de Ensino de Chicago. Obedecendo ao esquema de “provão” estipulado pelo governo federal, as escolas eram avaliadas de acordo com o desempenho de seus alunos (como acontece aqui no Brasil) e o sistema de recompensas também foi o tradicional.

As escolas em que os alunos obtinham boas notas ou apresentavam progresso expressivo eram premiadas e os professores poderiam ser promovidos e ganhar prêmios financeiros do estado. Já as escolas com mau desempenho corriam o risco de serem fechadas ou terem seus funcionários demitidos ou transferidos. Para o vencedor a glória, para o perdedor a vergonha.

O tiro pode sair pela culatra

Agora quero que você pense como um professor ou como um aluno. O que você acha que aconteceu?

Não só os alunos tinham incentivos para trapacear, como também os professores! Alunos colavam aos montes e professores adulteravam as respostas das provas após os alunos a entregarem, houve até mesmo um caso em que uma professora escreveu as respostas na lousa.

Mas você deve estar se perguntando o que esses estudos têm haver comigo ou com minha profissão? Bom, se você gerencia pessoas vai entender já.

Para os autores, um incentivo deve ser composto de três ingredientes básicos – o econômico, o social e o moral – e cita como exemplo a campanha antitabagista dos últimos anos. Os altos juros cobrados em cada maço de cigarros constituem o incentivo econômico contra a compra de cigarros.

A proibição em bares e restaurantes é um incentivo social. E a afirmação do governo de que os traficantes angariam fundos com a venda de cigarros no mercado negro atua como um incentivo moral.

Os problemas acontecem, segundo eles, quando apenas o incentivo econômico é levado em conta, deixando de lado o incentivo moral (que no caso da creche era a culpa dos pais que se atrasavam) ou o social (o bairro todo saber que você é um pai ausente).

Priorizar apenas o lado econômico é típico de pessoas mal preparadas que enxergam nos problemas uma forma de ganhar um dinheirinho extra.

Como foi visto, dependendo do caso, apenas multar ou recompensar financeiramente as pessoas não resolvem as coisas, pelo contrário, pode agravar ainda mais o problema.

Há casos em que o lado moral e social exerce um enorme poder, como o caso relatado pelos autores do qual varias cidades americanas estão combatendo a prostituição com uma ofensiva “constrangedora”, estão expondo fotografias de clientes e prostitutas condenados em sites na internet e nas televisões locais.

O que parece mais amedrontador, uma multa de $500 por utilizar os serviços de uma prostituta ou a idéia de que os amigos e a família vejam seu rosto em um site na internet?

Da próxima vez que você precisar arquitetar uma solução para algum problema e que para isso precise envolver algum esquema de benefícios ou punições, não se esqueça, os benefícios envolvem três ingredientes básicos, o econômico, o social e o moral. Planeja bem para não precisar ver o tiro sair pela culatra.


Newslatter

Comentários

  1. Muito legal, Diego! Além de às vezes estimular comportamentos antiéticos, alguns incentivos também podem piorar a performance.Um abraço, Rodolfo.

LinkedIn Auto Publish Powered By : XYZScripts.com