Como utilizar a pressão social para favorecer suas decisões


Em meio a um churrasco do final de semana, um amigo comentou comigo sobre uma reunião de condomínio do qual ele participou. Dentre os temas debatidos, ele me disse que estava um pouco insatisfeito pelo fato de algumas decisões polêmicas, como uma que abordava sobre a obrigatoriedade de não fazer tanto barulho em um determinado período de tempo, terem sido votadas abertamente. Segundo ele, foi requisitado que os moradores que fossem contra a norma, deveriam levantar a mão para que seus votos fossem devidamente validados.

7004381g1Ao pensar sobre o caso, me veio a cabeça um interessante experimento realizado nos Estados Unidos, e que foi relatado por Tim Harford, em seu livro A lógica da vida.

Segue abaixo o texto na integra:

Uma classe de 26 alunos recebeu uma proposta de seu professor para ganhar algum dinheiro. A cada aluno seria dada uma cédula eleitoral com duas opções.

A primeira era a altruísta: cada aluno que marcasse a opção 1 garantiria um pagamento de dois dólares para ser dividido igualmente entre o grupo – cerca de oito centavos para cada um.

A segunda opção era a egoísta: cada aluno que marcasse a opção 2, receberia, sozinho, apenas cinquenta centavos, e o grupo não receberia nada.

O melhor seria que todos os alunos marcassem a opção 1: a quantia proveniente da generosidade de cada um superaria em muito a perda de cinquenta centavos.

No entanto, um aluno ganharia ainda mais se garantisse seus cinquenta centavos e torcesse para que todos os outros fossem generosos.

Foi dada a oportunidade de discutir bastante a situação antes de votar. Todos manifestaram a intenção de colaborar e de escolher a opção 1, é claro.

Ainda assim, a tentativa de coordenação para se extrair algum dinheiro do professor fracassou completamente, como seria de se esperar.

Vinte e dois dos 26 alunos preferiram a atitude egoísta e escolheram a opção 2 – na expectativa de que os colegas cobrissem a outra opção.

Um dos lideres do bando estava indignado: “Jamais confiarei em ninguém enquanto viver!”. E ele escolheu a opção 1, altruísta? Não. “Ah, escolhi a opção 2”

A conclusão desse experimento sobre pressão social foi a seguinte:

O que você escolhe para si próprio não é o mesmo que escolhe para dividir com os outros – especialmente quando a decisão é tomada no anonimato.

Ou seja, provavelmente você acharia mais justo gastar R$100,00 para almoçar em uma churrascaria de luxo, do que contribuir com os mesmos R$100,00 para o churrasco do escritório, que provavelmente seria uma ocasião mais significativa em sua vida.

Agora vamos voltar ao caso do meu amigo, que é o que nos interessa.

Imagine que você, como sindico de um condomínio, está conduzindo a reunião anual de melhorias do lugar. Você sabe, e provavelmente todos os moradores também saibam, que a construção de um quiosque provavelmente seria benéfico para todos, no entanto, tal construção custaria, por casa, uma taxa extra de cerca de R$100,00 mensais, durante dois anos, na conta de cada condômino.

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Cena típica de uma reunião de condomínio

Tal melhoria foi devidamente justificada, porém, com tantas contas para pagar, dificilmente algum morador gostaria de ter mais essa despesa extra somada ao seu já pesado carne de custos. “Pra que gastar dinheiro construindo esse quiosque, com essa quantia daria para eu reformar a minha própria área de lazer, muito mais vantajosa para minha família”.

Você, como presidente da reunião, poderia optar por uma votação secreta, de maneira a preservar a privacidade e a escolha de cada um dos moradores, no entanto, como já demonstrado anteriormente, talvez uma decisão como essa poderia implicar em um resultado desfavorável para todos.

Sem se dar conta, você estará usando a psicologia da pressão social para favorecer uma decisão em conjunto.

É claro que cada caso é um caso, porém, é válido lembrar que se cada um enxergar apenas o que é bom só para o seu lado, seremos incapazes de ver o que é bom para todos.


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