Ele faltou, e agora?


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Certa vez, em uma das matérias mais difíceis da faculdade, nosso professor solicitou para que a sala se dividisse em grupos para que todos elaborassem um trabalho. Cada grupo ficaria responsável por apresentar um capítulo de um extenso livro de gestão.

Após formarmos nossa equipe, decidimos que o melhor método seria fazer uma divisão dos subcapítulos a serem apresentados, cada um ficaria com uma parte, de maneira que todos basicamente estudariam a mesma quantidade, uma decisão justa, pois ninguém queria ficar sobrecarregado, visto que já tínhamos diversos outros afazeres em nossas empresas.

Foi um período cansativo, passamos vários finais de semana preparando o conteúdo para a apresentação, afinal, estava valendo a média final da matéria e todo mundo do grupo estava precisando de nota.

Chegado o dia da apresentação, tivemos uma inesperada e desagradável surpresa: um integrante do nosso grupo não apareceu! A aula estava prestes a começar e o nosso amigo simplesmente não havia dado nenhum sinal de vida.

Ele faltou, e agora?

Tentamos explicar a situação para o professor, argumentamos que a culpa não era nossa, que o trabalho havia sido dividido em partes iguais, e que como nosso amigo havia faltado sem nos avisar antecipadamente, seria muito difícil apresentar o trabalho por completo.

Nosso professor ouviu atentamente nossas reclamações, sem nos interromper em nenhum momento. Logo após nosso desabafo, ele friamente nos deu uma lição, ou melhor, um ensinamento, que só muito tempo depois consegui compreender.

Meus caros alunos, disse ele, lamento informar a vocês que esse imprevisto infelizmente não é problema meu, e sim de vocês, dessa forma, o resto da sala não pode assumir a culpa por esse acontecimento.

Se o integrante do grupo faltou, alguém deverá assumir a parte dele e fazer sua apresentação, caso fique faltando essa parte, o grupo todo perderá nota.

Reclamamos mais um pouco, falamos novamente que não era justo, que a falta de responsabilidade dele não poderia prejudicar todo o grupo que tanto se empenhou para elaborar aquela apresentação.

Nosso professor novamente nos ouviu, e em um tom de voz frio, argumentou que o dia em que nós fossemos apresentar um projeto para algum diretor, ou mesmo fazer um pedido de financiamento para algum investidor, essa desculpa não seria aceita, e a consequência seria a mesma.

Naquele período, essa lição parecia dura demais para ser compreendida. Para nós, ingênuos e mal acostumados calouros, o professor não estava sendo um professor, e sim um carrasco.

Não conseguíamos entender que ele estava nos preparando para um mercado de trabalho que não aceita falhas ou desculpas.

Querer tirar o corpo fora quando algum imprevisto acontece infelizmente é uma atitude muito comum na cultura brasileira.Hoje, como professor, tento repassar essa lição que aprendi, mas confesso que a resistência encontrada está cada vez mais forte.

Os alunos não querem mais fazer trabalho em grupo, quando fazem, exigem notas individuais, ninguém quer ser prejudicado por esse ou aquele que não se empenhou o suficiente.

O espírito de equipe está cada vez mais raro, todos querem ser a estrela responsável pelo resultado, se ele for positivo, é claro, porque se for negativo, com certeza a culpa foi de alguém, e não minha.

Parece que os alunos, ou melhor, os futuros gestores, não conseguem entender que no mercado de trabalho serão forçados a trabalhar em grupos, e que quando se está dentro de um, não existe eu ou ele, se um perder, todos perdem. Não há espaço para estrelas solitárias.

Hoje, refletindo o assunto, só tenho uma coisa a dizer: obrigado professor!


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