Erick Jacquin: os resultados de uma liderança autoritária


ERICK JACQUIN (FOTO: ÉPOCA NEGÓCIOS / ALEXANDRE SEVERO)

ERICK JACQUIN (FOTO: ÉPOCA NEGÓCIOS / ALEXANDRE SEVERO)

Ele está entre os chefes de cozinha mais premiados do Brasil, além de ser uma das estrelas da versão brasileira do programa MasterChef. Eu não assisto televisão, mas fiquei sabendo de sua fama e personalidade agressiva através da excelente reportagem da Revista Época chamada “Eu nunca mais vou assinar uma carteira de trabalho na vida”. Como esse blog trata apenas de assuntos ligados a área de negócios, e não de culinária, irei comentar as barbaridades de liderança que o nosso grande chefe proferiu a repórter Michelle Ferreira, responsável pela entrevista.

Antes de tudo, gostaria de frisar que, inicialmente, o texto de hoje era para ser um simples comentário na própria página da revista, porém, como o sistema de comentários do site da Época é tão desprezível, ao ponto de me fazer desistir após várias tentativas frustradas, resolvi estender meu pensamento até aqui e criar o post de hoje.

Motivo explicado, vamos aos fatos:

Primeira observação: o autoritarismo ultrapassado

Ao começar a ler a entrevista, já nas primeiras linhas nota-se uma grande incoerência: como um dos chefes mais premiados do Brasil está passando por extremas dificuldades financeiras? E o que é pior, como ele sequer tem uma fonte de renda, um local de trabalho para conseguir saldar suas dívidas, que já beiram os R$1,5 milhões? É como se o Neymar com todo o seu talento estivesse sem dinheiro e sem clubes interessados em seu passe! As respostas para esse questionamento começaram a aparecer logo nos próximos parágrafos…

Fica perceptível que o Sr. Erick Jacquin, ao longo de toda sua carreira, optou por fazer uso de um estilo de liderança ultrapassado, totalmente autoritário, digno de um chefe da revolução industrial. Como eu já disse em um antigo texto sobre dicas de liderança, o papel gerencial mudou, antigamente davam-se ordens, hoje desenvolve-se pessoas. Atualmente, os gerentes mais eficazes se esforçam ao máximo para mostrar as pessoas como descobrir as soluções por si mesmas e depois não atrapalhar (por sinal, essa é a tese do livro Não faça nada! Aprenda a deixar que cada um faça o seu trabalho).

Em outro relevante artigo publicado pelo prof. Marcos Hashimoto sobre como criar um clima de inovação na sua empresa, o autor aborda alguns princípios básicos para que os funcionários de uma organização possam promover melhorias e gerar benefícios em seus trabalhos, dentre eles eu separei um:

Confiança. As pessoas precisam sentir que as lideranças confiam no trabalho e nas iniciativas delas. Em ambientes em que a desconfiança impera, as pessoas não acreditam que suas ideias sejam valorizadas ou que não serão penalizadas se sua iniciativa não trouxer os resultados esperados.

Agora eu te pergunto: em uma empresa onde aquele que deveria dar o exemplo age da seguinte forma “a fama de durão e de difícil convivência veio depois de empregados revelarem xingamentos e até arremessos de pratos pelo francês” está apta para produzir um clima de confiança? Eu duvido muito!

Segundo comentário: O elogio atrapalha.

Em alguns casos, se você disser para o cara que a comida dele está excepcional, ele vai relaxar. Eu não sou uma pessoa que faz muito elogios. Nunca fiz muitos elogios para as pessoas que trabalhavam comigo. Se eu fizesse um elogio, as pessoas até ficavam espantadas. Eu acredito que o elogio atrapalha. Eu também não sou uma pessoa que gosta de ficar recebendo elogios. Para ajudar alguém, você deve elogiar na hora certa. Se a pessoa estiver deprimida, você deve elogiar para ela voltar. Mas se as pessoas estão bem, você não pode elogiar – você vai diminuir o padrão do trabalho.

Esse processo identificado pelo chefe de que o elogio causa piora e a bronca causa melhora já foi descrito pelo psicólogo Daniel Kahneman e também comentado aqui no blog, trata-se de um termo chamado Regressão a Média. Adaptado para o caso do restaurante, funciona da seguinte forma:

Se um cozinheiro fizer um prato excepcionalmente bom, bem acima de seu nível normal de performance, haverá uma boa chance de que, no dia seguinte, essa performance se aproxime da média, ou seja, piore. E se o chefe o tiver elogiado, ficara com a impressão de que o elogio não teve efeito positivo.

Porém, se um cozinheiro fizer um prato excepcionalmente ruim, haverá uma boa chance de que, no dia seguinte, sua performance se aproxime mais da média, ou seja, melhore. E se o seu chefe tiver o habito de gritar “seu jegue” sempre que algum aluno tiver o desempenho ruim, ficara com a impressão de que a crítica teve efeito positivo.

Dessa maneira surge uma falsa impressão:

Cozinheiro faz um bom prato, elogio tem efeito negativo; cozinheiro faz um prato ruim, o chefe o compara a uma mula-sem-cabeça, cozinheiro melhora. 

Pessoal, um elogio sincero para um trabalho bem feito jamais será prejudicial para um funcionário. Ler uma declaração como essa me causou um grande espanto, para não dizer que foi um grande ABSURDO!

Porém, é claro que não existem só críticas a essa entrevista, um ponto positivo merece ser destacado:

Terceira observação: o excesso de trabalho compromete a qualidade

Um cozinheiro que trabalhou 12 horas no dia teve um bom dia de trabalho. Agora, não é bom trabalhar muito. O chef que trabalha 18 horas, já não cozinha igual, já não consegue fazer coisa boa. No Brasil, por exemplo, o restaurante fecha muito tarde. Às vezes, até 1h da manhã. Na Europa, nenhum restaurante muito bom vai te receber nesse horário. Um bom restaurante na França fecha às 21h30, 22h no máximo. Você acha que o cozinheiro de um restaurante que abriu cedo tem vontade de fazer um prato à meia-noite? Impossível.

Dessa vez eu concordo PLENAMENTE. Apesar de nunca ter conversado sobre esse assunto com o pessoal que trabalha em cozinhas de restaurantes, essa afirmação faz todo sentido. Manter um padrão de excelência em um serviço que, apesar dos processos controlados, requer muita sensibilidade do prestador, é algo extremamente difícil.

Calma que ainda não acabou, a melhor frase eu deixei para o final:

Quarta observação: a dica de ouro

Se eu pudesse dar uma dica para ser um bom cozinheiro seria: faça uma faculdade de manhã de administração e trabalhe em um restaurante durante a noite. 

E por que estudar Administração? Porque não basta ser bom apenas no lado operacional, você também precisa ser bom no pensamento estratégico.

Enfim, parabéns a repórter Michelle Ferreira pelas brilhantes perguntas e o meu muito obrigado a revista Época por manter um sistema de comentários medíocre funcionando, foi por conta dele que fui obrigado a refletir um pouco mais sobre esse texto que, sem dúvidas, utilizarei em cursos futuros sobre Liderança.


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