[Resenha] A Cabeça do Brasileiro


a-cabeça-do-brasileiroO Brasil é um país hierárquico, familista, patrimonialistas, ou em outras palavras, é um país que ainda vive em atraso quando se refere a questões sociais. Para alguns essa frase é surpreendente, para outros previsível.

Com uma proposta de descobrir o que o povo brasileiro realmente pensa sobre alguns assuntos polêmicos Alberto Carlos de Almeida organizou uma pesquisa intitulada de Pesquisa Social Brasileira (PESB) onde procurou reunir dados quantitativos de maneira que o resultado fosse o mais correto possível. Para tal, foram entrevistadas 2.363 pessoas, entre 18 de julho e 5 de outubro de 2002, em 102 municípios e desses, 27 foram considerados auto-representativos (todas as capitais) e 75 não auto-representativos. Do total de entrevistados, 9% eram analfabetos e apenas 12% com ensino superior. Foram ainda excluídas da pesquisa as cidades com menos de 20.000 habitantes.

Um breve resumo sobre o que foi abordado pelo livro A Cabeça do Brasileiro está logo abaixo:

Hierarquismo e Igualitarismo

O resumo desses dois temas são fáceis e curtos, o Brasil é um país fortemente hieraquista e por isso possui um baixo grau de igualitarismo.

Em nosso país, o patrão sempre será tratado como patrão e o empregado como empregado, mesmo fora das relações de trabalho, diferentemente do que acontece em países igualitários. No Brasil é comum pessoas que tem dinheiro ou mesmo aparentam ter, receberem tratamento especial e vantagens,”o doutor tem preferência na fila, o amigo do prefeito pode passar o processo dele na frente, etc”.

Não há como negar que todos nós gostamos de rotular as pessoas, o porteiro pode ganhar na mega sena e ficar milionário, pode começar a estudar e crescer na vida, mas sempre será visto como o “porteiro do prédio”.

Corrupção e Jeitinho

Primeiro é preciso diferenciar um conceito do outro. Para o brasileiro corrupção é aquilo que de certa forma envolve alguma quantia de dinheiro, já o jeitinho, em sua maioria, costuma envolver algum tipo de burocracia. Ou seja, corrupção é a forma de alguém tirar vantagem financeira de uma situação, e jeitinho caracteriza-se pela boa vontade como forma de solucionar os problemas.

O jeitinho, por ser de convivência e estar de certa forma ao alcance da população, tem o seu apoio, eles são a favores. Já a corrupção pelo fato de favorecer poucos, tem uma ampla rejeição. Se eu posso me beneficiar, sou a favor, se eu não posso estar dentro do esquema, sou contra, engraçado não?

O Fatalismo Religioso e a Cultura Familiar

A pesquisa mostrou que 1/3 dos brasileiros adultos acreditam que apenas Deus decide o destino dos homens, sem espaço para a mão humana, ou seja, 33,3% da nossa população acredita que “nosso destino a Deus pertence” e nada podemos fazer quanto a isso.

Referente a cultura familiar, Almeida ainda nos mostra que 84% da população confiam inteiramente na família e por isso os processos de sucessão familiar são tão complicados no Brasil. Aqui não é raro encontrar pequenos negócios onde o lugar da caixa registradora só pode ser ocupado por um membro da família, mesmo que isso signifique perda de eficiência. Segundo essas pessoas, essa perda é compensada pelo ganho em confiança. Pra que me preocupar em colocar um administrador na minha empresa? Meu sobrinho da conta do recado.

Liberalismo Sexual

Em frente às câmeras sempre é tudo muito bonito, ninguém é contra nada, todos são liberais quando o assunto é sexo e o país segue seu caminho rumo ao modernismo. Mas será mesmo que o brasileiro é tão liberalista assim? Vamos ver o que a pesquisa identificou:

Tabela dos Resultados Sobre o Liberalismo Sexual no Brasil

Jair Bolsonaro, Racismo e Liberalismo Sexual. Acreditem, ele faz parte de uma maioria.

(*) Desconsiderados os Analfabetos e Estudantes da Quarta Série até a Oitava Série. (**) Desconsiderados os Evangélicos Pentecostal e Evangélicos Não-Pentecostal.

Com um resultado Médio Geral de 89%, não restam dúvidas. No que tange o assunto homossexualidade, o Brasil pode sim ser considerado um país que não aprova esse tipo de conduta, a porcentagem de pessoas contra é esmagadora. Essa é opinião é unânime tanto para homens quanto para mulheres, de qualquer faixa etária, de qualquer grau de escolaridade, não importando se são católicos ou se não seguem nenhuma religião tampouco se moram em uma capital ou em uma cidade do interior.

Se a pesquisa aponta para um resultado dessa natureza, como explicar então a revolta da população?

Para essa resposta, o autor adverte que, mesmo sendo a minoria, os que apoiam o liberalismo sexual são os formadores de opinião, ou seja, são as pessoas da mídia, jornalistas que fazem matéria de revistas, apresentadores de televisão ou mesmo uma parcela que detém o diploma ou ainda está cursando o Ensino Superior. A maioria, que está do lado do perfil conservador, está longe de ser composta por formadores de opinião. Por isso, segundo Almeida, qualquer um pode ser levado a crer que a mentalidade média do país é semelhante ao que se vê na mídia, como o que de fato aconteceu.

Racismo

Como medir o índice de racismo da população? Esse foi o maior desafio enfrentado pelo autor, ele afirma que “algumas tentativas anteriores haviam sido feitas para obter um resultado quantitativo, porém esbarravam em perguntas formuladas de maneira pouco adequada, que induziam o entrevistado a camuflar seu preconceito”, ou seja, não adianta chegar a uma pessoa e perguntar “o senhor se considera racista?”, ela de certa forma seria induzida a responder que não e a pesquisa não seria eficiente, seu resultado seria deturpado.

Para resolver esse problema, Almeida elaborou uma pesquisa onde foram apresentadas 7 fotografias de pessoas aos entrevistados, em uma escala do mais branco para o mais negro (branco, pardo e negro), onde a primeira foto mostrava uma pessoa totalmente branca e a ultima uma totalmente negra.

Esse “quadro de fotos” foi então mostrado aos entrevistados e um total de 17 perguntas do tipo “qual dessas pessoas parece ser um advogado?”, “qual delas parece ser um criminoso?”, “qual parece ter mais estudo?” foram feitas.

E surpreendente (será?) o que a pesquisa identificou foi o seguinte:

 

Você é mais bem visto sendo branco e mecânico de carro do que sendo pardo ou preto advogado.

Surpreendentemente o preconceito é maior contra os pardos do que contra os pretos

Vale muito à pena ressaltar que, contrariando o que outros autores tinham identificado até então, o contexto não muda a forma como os brasileiros vêem a cor das pessoas, ou seja, não é verdade que as profissões de status elevado “embranquecem” as pessoas.

O autor afirma de forma veemente que “o preconceito baseado na cor existe, é muito difundido e está enraizado entre nós”. Tudo isso ajudou ele a concluir que o Brasil é um país de vários adjetivos que significam arcaísmo e atraso. Almeida não deixa dúvidas de que a principal maneira do país seguir rumo ao que ele chama de modernismo é aumentando o nível de nossa educação, em suas palavras “a educação tem um forte impacto na sociedade que, por sua vez, influência enormemente a política”.

O amor pelo Estado

O brasileiro ama o Estado. É ele quem deve fornecer todas as condições para progredirmos na vida, e se isso não acontecer, a culpa não é nossa, a culpa é do Governo que não ofereceu condições para que isso acontecesse.

O curioso é que, em uma avaliação sobre o nível geral de desempenho e confiança das instituições brasileiras, os partidos e o congresso (instituições publicas) obtiveram a pior nota nos dois quesitos. Já as grandes, médias e pequenas empresas (instituições particulares) juntamente com a igreja católica, receberam as melhores notas. O que levou o autor a concluir que, nós, brasileiros, queremos o estado, independentemente de seu desempenho.

Conclusão

Em praticamente todos os casos, exceto no que se refere ao “jeitinho”, os problemas referentes aos assuntos listados acima serão resolvidos com o aumento da escolaridade brasileira. Essa é a principal forma de alcançarmos o nível de um país desenvolvido, como os Estados Unidos.

MUITA coisa mudou ao longo desses 10 anos . Com absoluta certeza se uma nova pesquisa fosse feita agora, as porcentagens identificadas cairiam. Infelizmente a grande massa de desinteressados ainda é capaz de formar a base da nossa política, mas a boa notícia é que se a forma de resolver os problemas é com base no aumento da escolaridade da população, estamos pelo menos no caminho certo.


Newslatter

Comentários

  1. […] essa polêmica me fez lembrar um livro chamado A Cabeça do Brasileiro escrito por Alberto Carlos Almeida que está em sua terceira edição, lançado em 2007. Este que […]

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