Linchamento, Psicologia e Estatística


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Essa semana um triste acontecimento marcou a história do nosso país, uma fatalidade tão forte que foi capaz de nos fazer esquecer da bizarra campanha de postarmos uma foto segurando uma banana.

Linchada e morta após ser confundida com uma sequestradora de crianças, a dona de casa de 33 anos tornou-se mais uma das inúmeras vítimas desse tipo de violência no Brasil. Um crime que nos fez voltar à era da idade média, onde bruxas eram queimadas vivas por um povo que pouco se importava com julgamentos.

O fato é que vítimas de linchamento não são novidades por aqui. Pegando algumas estatísticas (um pouco defasadas, confesso) dá para se ter ideia da brutalidade que nos cerca:

– no Brasil, a cada 5 minutos 2 mulheres são vítimas de espancamento (Pesquisa Fundação Perseu Abramo/SESC 2010).

– De 1980 a 2006 foram registrados 1.179 casos de linchamento no Brasil. O auge desse tipo de ação foi em 1991, quando ocorreram 148 casos. Naquele ano, um caso de linchamento em Matupá, no Mato Grosso, teve repercussão nacional (Núcleo de Estudos da Violência da Universidade Federal de São Paulo).

Julgo ser difícil alegar desconhecimento desses casos, visto que nossos jornais semanalmente estampam com destaque tais notícias (ponto para quem se lembrou de um determinado apresentador).

Se a situação sempre foi crítica, por que só agora o cidadão brasileiro resolveu mostrar toda a sua indignação nas redes sociais?

Linchamento, Psicologia e Estatística

É claro que não existe uma única resposta, porém, uma pesquisa feita pelo psicólogo da Universidade de Oregon, Paul Slovic, pode nos fornecer alguns indícios.

Seus experimentos são bem simples, ele pergunta às pessoas o quanto estariam dispostas a doar a diversas causas de caridade. Por exemplo, Slovic descobriu1asa que, quando as pessoas viam uma fotografia de Rokia, uma criança faminta do Malawi, um país da África, agiam com uma generosidade impressionante.

Depois de ver o corpo definhado e os olhos castanhos marcantes de Rokia, cada participante doou, em média, 2,50 dólares para o projeto de caridade Save the Childen.

Contudo, quando outras pessoas receberam uma lista com estatísticas sobre a fome na África – mais de 3 milhões de crianças no Malawi estão subnutridas, mais de 11 milhões de pessoas na Etiópia precisam de auxílio alimentar imediato e daí em diante – , a doação média foi 30% mais baixa.

À primeira vista, isso não faz sentido. Quando as pessoas são informadas a respeito do alcance real do problema, supostamente deveriam dar mais dinheiro, não menos. A história trágica de Rokia é apenas a ponta do iceberg.

Segundo Slovic, o problema com estatísticas é que elas não ativam nossas emoções morais. Os números deprimentes nos deixas impassíveis: nossas mentes não conseguem compreender o sofrimento em uma escala tão gigantesca.

É por isso que ficamos obcecados quando uma criança cai em um fosso, mas fazemos vista grossa para milhões de pessoas que morrem todos os dias por falta de água potável.

É também porque doamos milhares de dólares para ajudar um único órfão de guerra africano apresentado na capa de uma revista, mas ignoramos genocídios em massa em Ruanda.

Ou seja, adaptando para nossa realidade, ver uma fria tabela estatística mostrando os alarmantes dados sobre vítimas de linchamento no Brasil não nos comove, entretanto, quando observamos em vídeo um ato covarde, uma típica cena da era medieval, o problema torna-se muito mais real, tão real que nos faz querer agir prontamente.

Dramatizar o caso de uma mãe de família, inocente, que estava apenas voltando para casa após pegar sua bíblia que havia sido emprestada nos comove, nos faz lembrar que poderia ser algum parente ou amigo, e essa lembrança nos causa repulsa.

Já as estatísticas, bem, o máximo que elas podem é te fazer lembrar daquela prova de matemática da qual você tirou uma nota vermelha.

Como disse Madre Teresa: “Se eu olhar para a massa, jamais agirei. Mas se olho para o indivíduo, ajo”.


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