Precisamos conversar sobre suicídios de empresários…


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Olá, caro leitor.

Como você já deve estar sabendo (e se não está, recomendo me seguir pelo Instagram @JovemAdm), essa foi uma semana extremamente dolorosa não só para nós que estamos diretamente envolvidos com a área da Administração, mas sim para todo o povo brasileiro, que ficou chocado com a notícia da morte do empresário Luís Antônio Scussolino, que foi encontrado morto por seu funcionário, dentro da sua empresa, com uma corda pendurada no pescoço.

Por mais que eu tenha consciência dos riscos que eu corro ao querer comentar um assunto tão delicado, precisamos ter a serenidade de entender que esse caso merece sim a nossa atenção, pois eu acredito que é somente debatendo-o de maneira aberta e coletiva, que poderemos buscar as reflexões necessárias para agir de forma preventiva.

Como a minha função nesse espaço sempre foi a de democratizar o acesso a informação da área de Gestão, irei aproveitar esse momento para dar uma prévia de como eu debateria esse assunto em um grupo de estudos, caso estivesse reunido com outras pessoas interessadas em adquirir aprendizados, e não em expor ressentimentos.

Como tudo começou

Antes de querer tecer qualquer comentário, primeiro vamos assistir ao vídeo da reportagem que deu início ao caso:

O momento em que o assunto literalmente explodiu

Em seguida, transcrevo na integra a primeira postagem sobre o assunto que viralizou no Facebook, alcançando a marca de incríveis 100 mil likes até então:

No Brasil, aprende-se que empresários não tem sentimentos e gostam de pagar baixos salários ou demitir funcionários. Mas a verdade é exatamente o oposto, nenhum empresário tem como objetivo pagar baixos salários ou demitir seus funcionários. Empresários pensam na saúde da empresa, querem fazê-la crescer e gerar lucro. E quando a empresa cresce, mais funcionários são contratados (cria-se mais vagas), os bons funcionários sobem de carreira e as rendas dos trabalhadores melhoram.

Entretanto, em momento de crise, quando a receita cai e a empresa não tem onde tirar dinheiro para pagar seus funcionários, o empresário não tem outra opção a não ser ter que demitir alguns funcionários para evitar a quebra da empresa, o que resultaria em um desemprego ainda maior. Foi exatamente isso que aconteceu com uma fábrica de sofá na cidade de Rio Claro-SP.  Após ter queda de 80% nas vendas, devido à recessão econômica causada pelo governo federal, o dono da fábrica tentou negociar com sindicatos para reduzir jornada de trabalho e salários dos funcionários para não ter que demitir ninguém. Mas o sindicato negou.

Após perder a negociação com os sindicatos, o empresário não teve outra alternativa e foi obrigado a demitir 223 funcionários. Além de ver sua empresa a caminho da falência, ainda teve que aguentar o sentimento de culpa por prejudicar mais de 200 famílias com essas demissões. O dono da fábrica não suportou tamanha pressão e suicidou-se com uma corda no pescoço dentro da própria empresa.

Quando os empresários criam vagas e geram condições melhores para muitas famílias, os políticos se apropriam do momento para dizer que foram eles que melhoraram a situação do país. Agora, quando os mesmos políticos saqueiam os cofres públicos e faz o país atravessar uma enorme crise econômica, são os empresários que aguentam as pontas. Está na hora dos brasileiros enxergarem o outro lado da história.

Percebam que até esse momento temos um claro contraponto de opiniões. Enquanto a reportagem televisiva preferiu mostrar a vitimização dos funcionários da empresa, o texto em seguida optou em colocar a culpa nos sindicatos, que a princípio, tiveram a oportunidade de fazer um acordo para manter a engrenagem funcionando.

Mas não fizeram.

Vejam, qualquer um que já estudou sobre negociação deve ter aprendido que um dos princípios mais básicos dessa área é aplicar a mentalidade ganha-ganha, ou seja, o melhor acordo que se pode chegar em qualquer negociação é aquele em que ambas as partes saem vitoriosas. Uma pena ver que não foi bem isso o que aconteceu…

O que dizem os especialistas

Mas o assunto, é claro, não acaba por aí.

Nesse momento, vamos analisar o texto que o prof. Sthepen Kanitz publicou em seu Facebook. Para quem não conhece, o prof. Kanitz é um dos mais renomados pensadores da área de Administração do Brasil.

Por 10 anos conduzi uma pesquisa para a Revista Exame, “O Indicador”, onde perguntava a 2000 empresários suas estimativas sobre faturamento, lucro, investimento e contratação de mão de obra no semestre seguinte.

E colocava uma pergunta final, “Em Resumo Você está Otimista ou Pessimista?”.

Com base nesta pergunta, eu descobria o que mais tornava um empresário pessimista.

Não era queda de faturamento.

Não era queda no lucro, atenção economistas marxistas. Eles não maximizam lucro.

Não era queda no investimento.

Era queda na contratação de mão de obra, ter que demitir.

Sabemos disso há mais de 30 anos, graças à Revista Exame, a cada seis meses.

Pena que nossos Juízes do Trabalho, nossos sindicalistas, não leem a Revista Exame.

E “O Indicador” foi descontinuado.

Se você é daqueles estudiosos mais aficionados, já deve ter imaginado uma tabela de correlação enquanto lia esse pequeno texto. Entretanto, o que me deixou mais confuso foi o fato de ele ter misturado os termos “queda na contratação da mão de obra” e “ter que demitir”, pois sabemos que eles possuem significados bem opostos.

Enquanto que não contratar é algo perfeitamente aceitável na realidade de uma empresa, visto que isso sequer indica uma estagnação em seu crescimento, já que é perfeitamente possível aumentar sua lucratividade de outras formas, como reduzindo custos, ter que demitir funcionários é um cenário completamente diferente, esse sim, um momento delicado na vida de qualquer empresário.

Aqui começaria o debate

Quando alguém começa a se envolver com Administração, um dos assuntos que ele precisa começar a ter ciência é de que o processo de demissão, apesar de ser extremamente delicado, querendo ou não faz parte do jogo.  Ou seja, se você é, ou pretende ser, empresário, e ainda não demitiu ninguém, procure se informar sobre esse processo para que você não desenvolva possíveis traumas que podem acabar prejudicando não só a sua empresa, como também a sua vida pessoal.

Por fim, nesse caso, sou da opinião de que todo mundo tem o direito de se expressar, mas ninguém tem o direito de afirmar nada.

E que comecem os debates!

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Notas:

  • Aos que presenciaram a minha postagem original no Instagram sobre o assunto, me perdoem a inserção da foto do enforcamento, tenho consciência de que essa foi uma atitude insensível da minha parte.
  • Outro assunto que eu gostaria de debater é que eu NUNCA VI alguém abordar dentro do assunto de liderança questões sobre demissão em massa. Vamos ver se futuramente eu produzo algo sobre isso.
  • Poucos dias depois, um segundo empresário também virou notícia nacional ao suicidar após ter a sua produção de queijo apreendida pela fiscalização.


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