[Resenha] Mentes consumistas: do consumismo à compulsão por compras


119932358_1GGConsumismo é, e sempre será, um tema extremamente polêmico. Eu amo estudá-lo por basicamente dois motivos:

1 – Para não ser induzido pelos truques do comércio;

2 – Para criar formas de induzir os clientes a cair nos truques do comércio.

Sim, é isso mesmo. Como consumidor, minha principal preocupação é detectar tais artimanhas o quanto antes para que assim eu acabe não comprando o que não preciso. Agora, como professor e profissional de marketing, minha missão é mostrar as pessoas o que fazer para persuadir seus clientes a comprarem suas mercadorias.

Em Mentes consumistas: do consumismo à compulsão por compras, a médica psiquiátrica Ana Beatriz Barbosa Silva, parte da tese de que as pessoas do século XXI entraram em uma grande crise, onde para elas o ter vale mais do que o ser. Segundo a autora, enquanto o ser nos leva à posse não de objetos, pessoas ou coisas, mas de nós mesmos, o ter por sua vez, nos conduz à posse material de coisas que acabam por despertar e fomentar o egoísmo e a falta de altruísmo nas relações interpessoais.

Simplificando, enquanto o ser prioriza as pessoas, o ter prioriza coisas que podem ser compradas por valores determinados pelo mercado, e é exatamente aí que está todo o debate em questão.

Os problemas do consumismo

Muitas pessoas são capazes de quase tudo para obter coisas materiais que as fazem se sentir poderosas, únicas e/ou celebradas. Entretanto, o consumismo, por sua vez, tem o seu custo para a sociedade.

Nos últimos anos, explodiram as denuncias de trabalho quase escravo de pessoas que vivem sem nome e são descartáveis nessa engrenagem de fantasia conceitual, acontecimento narrado nos mínimos detalhes no livro Sem Logo: a tirania das marcas em um planeta vendido, da jornalista Naomi Klein.

Aos mais observadores, é inegável admitir que as redes sociais tiveram um papel fundamental na explosão do consumismo. É fato que uma grande parcela de pessoas utiliza tais redes para simplesmente exacerbar sua vaidade e seu individualismo. Uma roupa torna-se velha não mais pelo seu tempo de uso, mas sim pelo fato de uma foto ter sido tirada com ela em alguma ocasião, não importando se tal ocasião aconteceu poucos dias após sua compra.

“Consumir é preciso para viver, mas viver para consumir pode ser uma das maneiras mais eficazes de transformar a vida em uma morte existencial”

Uma preocupação para todos nós

As compulsões por compras, alimentos, corpos perfeitos, drogas em geral, beleza eterna, jogos diversos etc., demonstram a tendência humana de criar ilusões e acreditar sempre em soluções mágicas ou milagrosas para a árdua tarefa de esculpir, na pedra da vida, uma história que dê significado a nossa existência.

Todos, sem exceção, estão suscetíveis ao problema do consumismo, mas em graus diferentes, dependendo da sua herança genética (pais, avós, tios), vivências pessoais, sentimentos e emoções, valores educacionais, hábitos cotidianos e a cultura do meio social em que o individuo está inserido.

Os compulsivos por compras, na maioria dos casos, tendem a manter seu transtorno em segredo por muito tempo, pois têm plena consciência de que seus pensamentos e ações relacionados ao consumo fogem de um padrão “normal”. Ao agirem dessa forma, o vício se torna muito mais difícil de ser tratado. Reconhecer a aceitar tal patologia são os primeiros passos em busca do tratamento.

O consumismo e o marketing

Dentro da área de Marketing, a autora ainda aborda alguns tópicos interessantes, como a influência do ambiente segregador dos Shoppings, o uso da publicidade infantil para manipular o comportamento das crianças e o uso do neuromarketing para tornar as propagandas mais persuasivas.

Uma dica interessante dada pela autora é que deve-se evitar fazer compras quando você está passando por um período de estresse emocional muito alto, como o término de um relacionamento. Nesse estado, a pessoa fica mais suscetível a consumir, dessa forma, o vendedor, ao conseguir identificar esse detalhe em sua abordagem de vendas, consegue influenciar o consumidor a levar algo mais caro, que ele provavelmente não compraria em condições normais. Entenda que pessoas estressadas buscam nas compras a saída para a cura de suas dores.

Existe relação entre consumismo e felicidade?

Nosso conceito de felicidade é totalmente dependente da sociedade em que vivemos e da cultura produzida e propagada por nossas relações interpessoais e coletivas. A felicidade do povo está sendo bem avaliada pela capacidade de consumo que as classes menos favorecidas adquiriram nos últimos anos, basta ver os recentes programas do governo, como o bolsa família.

Infelizmente, a maioria absoluta da população parte do pressuposto de que quanto mais dinheiro se tem, mais felicidade ele gera. No entanto, diversos estudos sociais e antropológicos realizados em países prósperos revelaram que o aumento do padrão de vida da maioria de seus habitantes nos últimos trinta anos foi acompanhado por um ligeiro declínio na percepção subjetiva de bem estar.

O sociólogo inglês Richard Layard ajuda a explicar esse fenômeno. Segundo suas observações, o crescimento entre PIB e Felicidade só é observado até o ponto em que a carência e a pobreza davam lugar à satisfação das necessidades essenciais de sobrevivência, ou seja, os primeiros níveis da pirâmide de Maslow. A partir desse ponto, a sensação de felicidade deixa de subir e tende a descrever, mesmo com novos incrementos em termos de riqueza.

Conclusão

Uma sociedade que valoriza os indivíduos por aquilo que eles têm, e não pelo que são, faz com que todos vivam em eterna corrida maluca para alcançar um status que, ao ser atingido, já deixou de ter valor.

Apesar dos claros alertas da autora de que a sociedade precisa mudar para um consumo mais consciente, sejamos francos, isso dificilmente irá acontecer. As cifras gastas em publicidade pelas empresas aumentam a cada ano, e, com a ajuda da tecnologia, os anúncios estão ficando cada vez mais certeiros, tornando os consumidores presas fáceis de serem atingidas.

Polêmico ou não, existe uma verdade a ser encarada: enquanto de um lado existe uma gama de pessoas que sofrem com a falta de controle dos seus gastos, do outro existe uma gama de profissionais que precisam bater suas metas de vendas no final do mês.

A informação, segundo a própria autora, é a melhor forma de se livrar do vício compulsivo das compras. Enquanto a população consumista não se tocar sobre isso, o ciclo continuará girando e o lobo continuará comendo a ovelinha.

 


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