[Resenha] Não elogie o funcionário por fazer bem o seu trabalho – E outras 40 práticas obsoletas que repetimos nas empresas


shapiro

Uma obra que aborda única e exclusivamente práticas e técnicas polêmicas sobre inovação em processos empresariais. Minha primeira observação sobre o livro de Stephen M. Shapiro recai sobre o próprio título, não entendi por qual razão a tradução levou esse nome, já que o original em inglês chama-se “Best practices are stupid: 40 ways to out-innovate the competition” e a tradução em português de Portugal leva o nome de “As melhores ideias são estupidas: 40 formas de vencer a inovação da concorrência”.

Ao que me parece, a editora preferiu apelar para um título de autoajuda, com o claro intuito de ganhar destaque e aumentar as vendas, já que o mercado brasileiro é ávido por esses tipos de livros. Entretanto, já nas primeiras páginas da obra, essa falsa impressão caí logo abaixo, e você passa a perceber que o livro é bem mais do que isso.

Quando você aplica uma prática de inovação utilizada pela concorrência, o máximo que vai conseguir é se igualar a ela.

O autor, que além de escritor é consultor, palestrante e diretor da Innocentive, a famosa plataforma de inovação aberta na qual empresas privadas postam desafios para serem solucionados por pesquisadores de todo o mundo, apresenta 40 propostas que foram desenvolvidas para auxiliar os gestores a inovarem de maneira mais eficiente e mais focada.

Para ele, inovação significa trabalhar de maneira inteligente, e não trabalhar mais, essa premissa norteia uma série de práticas das quais eu abordarei abaixo.

Desmentindo os mitos da inovação

O “Quinto dia livre”, um projeto que o Google criou com o intuito de fornecer um dia livre para que seus funcionários para trabalhem no projeto que quiserem, na verdade foi criado para ajudar a empresa a ganhar a “guerra por talentos”, e pouco age no sentido de gerar novas fontes de lucro, como todos divulgam. Essa prática, só funciona em empresas como Google e 3M porque elas se beneficiam de uma força de trabalho das mais motivadas que existem no mercado, mas que dificilmente funcionaria em qualquer outra organização comum.

Inovação tem a ver com mudança, uma mudança contínua! Inovar é estar um passo à frente do seu concorrente para que você não seja comido. É preciso parar de tratar a inovação como algo que acontece uma vez na vida. Ela deve ser um processo contínuo e sem fim.

A especialização pode ser inimiga do pensamento inovador. Quanto mais você sabe sobre um determinado tópico, mais difícil é pensar sobre ele de maneira diferente. Se quiser romper barreiras, reúna pessoas de diferentes áreas de conhecimento, formações e experiências. Especialistas são bons em inovações incrementais, enquanto um grupo heterogêneo se sai melhor nas inovações disruptivas (aquelas que abalam o mercado).

Não comece do zero! Em vez de dizer aos seus funcionários para pensar fora do quadrado, dê-lhes um quadrado melhor a partir do qual possam inovar. Tenha um ponto de partida do qual improvisar. Começar do zero pode reduzir a criatividade e levar a soluções abstratas e impraticáveis. Estabelecer limites não impõe necessariamente restrições aos esforços para inovar.

Menos ideias ou mais ideias?

Excesso de geração de ideias NÃO É a melhor maneira de inovar: compare isso com o teorema do macaco: se você der um numero infinito de maquinas de escrever para um numero infinito de macacos, em algum momento eles escreverão “guerra e paz”. A crença por traz disso é: se você der tempo suficiente para os seus funcionários experimentarem e desenvolverem ideias livremente, eles vão acabar encontrando a próxima nova grande inovação.

Macacos

Na tentativa de ser mais inovadoras, muitas empresas começam pedindo ideias aos funcionários. Algo que, na verdade, é uma péssima ideia! Na maioria das vezes, as sugestões tendem a ser impraticáveis, ter pouco valor, e só acabam criando uma enorme quantidade de lixo improdutivo no sistema.

Caixa de ideias estão entupidas de ruído, e a quantidade de tempo necessária para peneiras ideias ruins e encontrar ouro é enorme. Se optar por esse caminho, você precisa ter certeza de que vai colocar em pratica um numero suficiente de ideias, a fim de manter o entusiasmo.

Infelizmente, como a maioria das sugestões dadas não é posta em pratica, isso acaba com a moral dos funcionários, além de deixar a empresa com um monte de trabalho extra.

Você não é o Thomas Edison! Há uma crença generalizada de que você deve continuar experimentando e fracassando até encontrar a solução que funciona, porque aprende tanto com o fracasso com o sucesso. Cada uma das 700 tentativas de Thomas Edison para inventar a lâmpada lhe custou tempo e dinheiro e com certeza a sua empresa não pode bancar tantas tentativas mal sucedidas assim. Processos falhos custam muito tempo, que poderia ser gasto em outras atividades. É por isso que o processo de inovação aberta do InnoCentive da tão certo nos Estados Unidos, nele as empresas pagam por resultados bem-sucedidos, e não por tentativas falhas.

Não se apegue demais às suas ideias. Estar certo pode ser o inimigo da boa inovação. Procure sempre evidencias contrárias que refutam suas hipóteses.

As multidões são boas para matar as ideias ruins, de modo que os especialistas possam analisar as poucas soluções plausíveis que restarem. Se você conseguir eliminar 90% do que não presta com esse método, pode acelerar radicalmente o tempo de analise.

Propostas demais podem indicar que você não definiu bem o desafio. Se você recebeu cem soluções das quais apenas duas eram exatamente o que você precisava e as outras 98 eram inúteis, isso deveria ser pior do que receber apenas duas que acertaram o alvo.

Aprendendo a propor desafios

Ao procurar ajuda externa para inovar, proponha um DESAFIO, e não um processo baseado em geração de ideias. Na primeira opção, você só pagará pelas soluções que funcionam, além de não ficar mergulhado em sugestões inúteis.

Desafios não podem ser nem amplos, nem abstratos e nem específicos demais. Não transmita para a sua equipe desafios do tipo “precisamos de ideias para aumentar nosso lucro”, tampouco um problema extremamente técnico que só pode ser resolvido por uma única área de conhecimento. Desafios assim, em geral, resultam em soluções irrelevantes. Proponha algo que provavelmente resultará em uma solução que pode ser posta em prática. Ex: “há mercados em que ainda não entramos? Como podemos aproveitar essa oportunidade, caso ela seja real?”.

Primeiro a competição individual, depois a colaboração entre pessoas. Pesquisas sugerem que, na verdade, indivíduos trabalhando sozinhos produzem ideias com mais qualidade e em maior quantidade do que quando trabalham em colaboração com outras pessoas, portanto, em seções de brainstorming, talvez seja mais interessante começar com uma competição para conseguir uma ampla gama de soluções, e só depois de selecionar as melhores, permitir que uma comunidade colaborativa as incremente.

Pedir a opinião das pessoas e permitir que elas votem nem sempre é a melhor maneira de promover seus esforços de inovação.

O crowdsourcing serve para ser fonte de soluções, não de opiniões. Deve focar em como algo deve ser feito e não no que deve ser feito.

Inovação na gestão de pessoas

Contrate pessoas de quem você não gosta. Para tarefas simples, as equipes homogêneas tinham um desempenho mais eficiente e mais consistente que as heterogêneas, entretanto, em tarefas mais difíceis, os grupos diversificados tiveram um desempenho mais eficiente e consistente. Ter pessoas que se dão bem em sua equipe parece mais fácil, mas raramente vai levar a ideias novas. A criatividade e a inovação surgem a partir da tensão.

Descentralização: Uma organização inovadora precisa ser estruturada de modo a evitar o controle central, ela precisa dar voz aos funcionários, criar boas condições de aprendizado, motivação e participação.

Evite que sua empresa seja reconhecida como aquela organização de um só sucesso: Garante que os esforços para inovar sejam previsíveis e sustentáveis, onde a criatividade seja encorajada por toda a empresa e as melhores soluções são de fato implementadas.

O líder deve deixar claro a todos a resposta da pergunta POR QUE INOVAR: se você quer uma cultura de inovação, seus funcionários precisam adotar ações, valores, crenças, habilidades e linguagens condizentes com esse objetivo.

Inovação e concorrência

Saia da frente do computador e observe o mundo – e seus clientes – com olhos renovados. Ao fazer isso, certamente vai descobrir oportunidades que não esperava.

Inovação tem a ver com adaptação, sua habilidade de mudar para ficar um passo à frente da concorrência. Quando você imita a melhor prática de alguém, não está saindo na frente, mas brincando de pega-pega. Sua competência de diferenciação, em especial, precisa ser única e diferente, e não baseada no que os outros estão fazendo.

Se é fácil para o concorrente copiar sua competência diferenciadora, então ela não é uma competência diferenciadora.

A perfeição só é finalmente alcançada não quando não há mais nada a ser acrescentado, mas quando não há mais nada a ser retirado. Infelizmente, a maioria dos inovadores acredita que perfeição tem a ver com acrescentar o máximo de características e funções possível, o que resultado, com muita frequência, em novos produtos extremamente complexos e que acabam servindo a seus clientes mais do que o necessário.

Em vez de buscar a perfeição, concentre-se em tornar seus produtos mais acessíveis. Outra opção é desenvolver uma versão de baixo custo dos seus produtos e serviços. Apesar de esse modelo canibalizar parte do negócio central, no todo, fez com o que o negocio crescesse consideravelmente, dando à empresa acesso a compradores que nunca haviam usado seus produtos antes.

Pense: Que características, serviços ou qualidades podem ser reduzidos para atender a um novo mercado?

A polêmica em torno da criatividade

A motivação extrínseca ofusca a criatividade. Se uma recompensa – dinheiro, prêmios ou mesmo um elogio – se torna a razão para participar de uma atividade, a empreitada por si só acabará sendo vista como menos agradável e o foco irá se deslocar para realizar a tarefa rapidamente com risco mínimo. Isso obscurece o estimulo intelectual do processo e mata a criatividade. A criatividade é um processo que não pode ser forçado.

Estamos atrapalhando nossa habilidade de ser criativos quando pensamos demais, nos estressamos demais, ou somos motivados de maneira extrínseca.

Quando pressionados pelo tempo, a criatividade é completamente minada.

Pedir às pessoas que sejam criativas e dar a elas um pouco de espaço para respirar faz maravilhas pelo aumento da criatividade.

Técnicas para geração de ideias inovadoras

Coloque-se no lugar de outra pessoa – todos os dias, ao acordar, convença-se de que é uma pessoa diferente. Não importa quem escolher ser. Então começara a ver as coisas ao longo do dia que não tinha notado antes. A criatividade exige que vejamos o mundo com olhos renovados. Ao nos colocarmos no lugar de outra pessoa, vemos o mundo por meio dos olhos dela, o que nos oferece posições estratégicas diferentes.

Aprenda com as crianças – elas não conhecem limites para suas brincadeiras, elas podem voar, atirar com as mãos, ressuscitar e muito mais. Ao virarmos adultos, conhecemos regras e limites que minam a nossa criatividade. Na verdade, não perdemos nossa criatividade, adquirimos hábitos que fazem com que ela pare de emergir.

 

Em sessões de brainstorming, é inevitável que alguém diga: “não temos tempo suficiente para implantar essa ideia” ou “não temos dinheiro suficiente”. Ao ouvir isso, responda com um desafio “como podemos conseguir mais dinheiro?” ou “como podemos fazer isso gastando menos dinheiro?”.

A melhor maneira de encontrar rapidamente soluções para o seu desafio é identificar alguém que já resolveu o problema – mas em um contexto diferente, ou seja, alguém de outro setor. Um fabricante de pastas de dentes usou um novo conceito para clarear os dentes utilizando os mesmos agentes azuis usados nos sabões em pó para clarear as roupas.

Adapte seu produto a um novo ambiente – liste as principais potencialidades do seu produto e as necessidades de um mercado aleatório. A Arm & Hammer percebeu que as pessoas não utilizavam mais o bicarbonato de sódio para assar bolos ou pães e então passou a usar o produto para odorizadores de geladeira, de carpete, alvejantes, pastas de dente, limpadores de panela e muito mais.

Conclusão

Como vocês puderam notar, o livro está repleto de conceitos e ideias, algumas polêmicas, outras já bastante divulgadas em outros livros sobre inovação.

O desafio aqui é conseguir filtrar tanta informação, de maneira que a sua empresa consiga tirar o melhor proveito das práticas apresentadas e eliminar aquelas que não condizem com o seu modelo de gestão.

Leitura recomendada.


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Comentários

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