[Resenha] O livro do Boni


boni-livroConfesso para vocês que se não fosse pelo preço da obra, que estava em uma mega promoção no Submarino, eu não teria comprado este livro. Apesar de ser uma lenda dos bastidores da televisão brasileira, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, é uma figura que nunca me despertou tanto interesse assim, no entanto, em sua biografia, fica evidente a sua expressiva participação na construção desse mercado.

Boni, que começou sua carreira como redator em uma rádio, também passou por agências de publicidade, até finalmente exercer diversos cargos de direção em praticamente todas as emissoras de televisão da época. Dentre eles, destaca-se o de vice-presidente de operações da Rede Globo.

Na obra, o autor conta como foi o seu primeiro contato com os renomados artistas de hoje, mas que na época, tratavam-se de meros desconhecidos, como os polivalentes Jô Soares e Chico Anysio, que criaram e interpretaram centenas de personagens, além de atuarem como diretores de seus próprios shows; a polêmica Dercy Gonçalves, que foi duramente censurada pela ditadura, chegando a ter seu programa totalmente inviabilizado depois de tantos cortes;  o gênio indomável chamado Chacrinha, que acabou deixando a Globo após inúmeras brigas com Boni, até finalmente retornar para se tornar no sucesso que foi, o rei Roberto Carlos, os humoristas do Casseta e Planeta, a jornalista Maria Gabriela, o empresário Silvio Santos, o apresentador Fausto Silva, e inúmeros outros.

Dentre alguns nomes citados, Boni agradece imensamente o humorista Carlos Nóbrega, o criador da Praça da Alegria, e que depois se transformaria na conhecidíssima A Praça é Nossa, que todo dia o levava para almoçar em sua casa, onde discutiam como tinha sido o programa e o que deveriam fazer para melhora-lo. Nas palavras de Boni “sem ele eu não teria dado a partida”.

Achei interessante ele citar que pelo fato da televisão brasileira ter nascido muito depois da televisão americana, foi de lá que brotaram praticamente todas as ideias e soluções iniciais para a nossa televisão. Esse benchmarking foi necessário porque, enquanto a TV americana se beneficiou por ter herdado as melhores práticas advindas da indústria do cinema, a TV Brasileira surgiu a partir das práticas adotadas do Rádio, um panorama completamente diferente.

Por esse motivo, é comum aparecer passagens no livro onde o autor cita suas viagens aos Estados Unidos em busca das melhores práticas da indústria televisiva daquele país. E por falar em viagens ao exterior, o autor, que dá a entender que teve uma infância humilde, não explica como conseguiu aprender esse novo idioma, que acabou lhe proporcionando a oportunidade de fazer inúmeras visitas à terra do Tio Sam.

Curiosidades

Foi Boni quem criou, em meio às transmissões esportivas, a deixa publicitaria “Globo e você: tudo a ver”, prosseguida por um texto comercial gravado e de um vídeo com pequenas animações.  Antes disso, as inserções comerciais, herdadas do rádio, eram narradas pelo próprio comentarista da transmissão.

O “plim, plim” também foi criado por ele, fruto de sua obsessão em plim-plimperseguir mensagens curtas que pudessem marcar um produto com a maior síntese possível, técnica herdada de sua passagem por agências de publicidade.

 A Globo foi a primeira emissora do Brasil a utilizar o prefixo Rede em seu nome, até então, todas utilizam o prefixo TV. É também a emissora que possui o maior número de horas de produção própria em todo o mundo. Já chegou a ter 95% de índice de programação totalmente brasileira.

Foi pioneira no início do estilo de novela “Quem matou”, quando precisou assinar um personagem interpretado por um ator que deixou a emissora no meio da novela para ir trabalhar em uma concorrente.

Em um determinado capítulo da novela Selva de Pedra, no Rio de Janeiro, a Globo registrou 100% de IBOPE, o que significa que todos os televisores ligados naquele dia e naquele momento estavam sintonizados em seu canal. Esse fenômeno voltou a acontecer no último capítulo da novela Roque Santeiro (100% de participação no mercado, dá para imaginar?!?!)

O Fantástico foi o primeiro show do gênero em todo o mundo. O formato e o título do programa foram vendidos para mais de sessenta países e plagiados com o mesmo nome na Itália e na Espanha. O programa recebeu os mais importantes prêmios da televisão.

Para que se consiga diluir os investimentos em cenários, figurinos, elenco e outros custos diretos e indiretos de produção, uma novela precisa ficar no ar por aproximadamente 180 capítulos, o que dá cerca de sete a oito meses de duração.

A Globo também foi a primeira a transmitir novelas aos sábados. Após enfrentar problemas de transmissão com o carnaval em 1971, Boni mandou colocar no ar um capítulo inédito de uma novela, que iria ao ar apenas na segunda, pois não tinha outra opção de programação. Deu tão certo que a prática perdura até hoje.

Alguns atores, como a Glória Pires, Malu Mader, Antônio Fagundes e Tony Ramos, precisam ser “reservados” pelos autores das novelas com um ano de antecedência, tamanha a procura por eles.

A falta de uma programação infantil

 Você já reparou como andam escassos os programas destinados ao publico infantil? Já se perguntou o por quê? O autor dá uma explicação:

“Criança não tem poder aquisitivo, portanto, não é um consumidor direto e não tem poder decisório sobre as compras. No máximo, pede alguma coisa que deseja ou repete comerciais que viu na televisão, influenciando pais e responsáveis. Para os veículos de publicidade, o que conta é o cliente. Como não existem muitos anunciantes interessados no publico infantil, há cada vez menos programas para crianças.”

O departamento de análises e pesquisas

 Em vista de diminuir os erros na elaboração dos programas, bem como fazer adaptações caso estas não apresentem o retorno esperado no IBOPE, Boni criou para Globo um departamento de análises e pesquisas, que é responsável pela elaboração de estudos sociológicos, pesquisas de hábitos e tendências, pesquisas comportamentais, fluxos de trafego, horários de sair e voltar para casa e até hábitos sexuais.

Para Boni, a eficiência da comunicação só pode ser avaliada pela medição constante da resposta.

Tolerância Zero

Para o autor, pequenos erros, desde que nunca mais repetidos, são uma boa forma de aprendizado. Ele consagrava o direito ao erro quando se procurava o novo, mas estabelecia regras para punição e demissão imediata em relação ao desleixo, à falta de atenção e à repetição de falhar, ou seja, erros operacionais, por serem mecânicos e nada terem a ver com tentativa de criatividade, o deixavam furioso.

Quem quer ser criativo não pode ter medo de errar. Quem quer ser eficiente não pode tolerar o erro.

Tolerância zero não significa que tudo seja perfeito, mas que se busca a perfeição. Para mim, não há busca de perfeição quando se tem qualquer tipo de tolerância. É preciso querer 100% para conseguir 80% ou 90%.”

Considerações Finais

Sobre a sua saída da Rede Globo, Boni pouco comenta, apenas alega que após a morte do Dr. Roberto Marinho, a Rede, sob nova direção, passou a contratar vários profissionais que “não entendiam nada de televisão” para assumir seu comando.

Após várias discussões com o então presidente da Rede, resolveu deixa-la, permanecendo como consultor, com um pequeno detalhe, ele alega que nunca foi consultado para nada.

Atualmente Boni é sócio, com seus quatro filhos, da TV Vanguarda, afiliada à TV Globo no interior de São Paulo, tendo ganhado vários prêmios, dentre eles o de melhor emissora regional do Brasil.


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