[Resenha] O Momento Decisivo: O Funcionamento da Mente Humana no Instante da Escolha


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Como a mente humana toma decisões? E como podemos melhorar nossa maneira de tomá-las?

Com o passar dos anos e o avanço da tecnologia, finalmente podemos olhar dentro do cérebro e ver como os humanos pensam: a caixa preta foi escancarada. Em O momento decisivo: o funcionamento da mente humana no instante da escolha, o neurocientista americano Jonah Lehrer nos explica que não fomos projetados para sermos criaturas racionais e que nossas emoções orientam os padrões de nossas atividades mentais, ou seja, nossas tomadas de decisão.

Para facilitar sua difícil missão que envolve termos complexos como córtex pré-frontal, ínsulas, lóbulo e NAccs, Lehrer faz uma analogia com uma passagem do filósofo Platão, onde o mesmo gostava de imaginar a mente como uma carroça puxada por dois cavalos. O cérebro racional, dizia, é o cocheiro – segura as rédeas e decida para onde os cavalos correrão. Caso os cavalos se descontrolem, o cocheiro precisa apenas pegar o chicote e reafirmar sua autoridade.

Um dos cavalos é bem comportado, mas mesmo os melhores cocheiros têm dificuldade em controlar o outro cavalo, no qual Platão não poupou características agressivas. Para o filósofo, o segundo cavalo representa as emoções negativas e destrutivas, e não se submete à combinação de chicotadas. Dessa forma, o trabalho do cocheiro é impedir que o cavalo negro corra livremente e manter os dois cavalos seguindo em frente.

Lehrer afirma que, segundo a teoria de Platão, no qual acreditamos por muito tempo, a razão predomina sobre a emoção. Porém, o autor afirma que essa teoria clássica possui um erro crucial. Segundo o neurocientista, os cavalos e o cocheiro são interdependentes, ou seja, um depende do outro para existir, e se não fosse pelas emoções, a razão nem mesmo existiria. Essa questão, por sinal, é o enredo que conduz todo o livro.

Ele conclui essa passagem inicial dizendo que o processo de pensamento exige sentimento, pois são os sentimentos que nos permitem assimilar toda a informação que não podemos compreender diretamente. Por fim, a razão é impotente sem a emoção.

A decepção é educativa

Por meio de uma série de estudos, o autor mostra que se não pudermos incorporar as lições do passado em decisões futuras, estaremos destinados a repetir sempre os mesmos erros. Dado esse fato, seu ensinamento é claro: precisamos transformar nossos erros em lições duradouras.

Se você não experimentar os sintomas desagradáveis de estar errado, seu cérebro jamais revisará os próprios modelos. Antes que seus neurônios possam acertar, precisam errar repetidamente. Não há atalhos para esse processo árduo.

Os erros não devem ser desencorajados. Pelo contrário, devem ser cultivados e investigados com muito cuidado. Quando a mente deixa de sentir a pontada emocional da derrota, jamais descobre como vencer. Mesmo quando pensamos que não sabemos nada, nossos cérebros sabem alguma coisa – e é isso o que as sensações tentam nos dizer.

O consumismo estimulado pelo cartão de crédito

O grande problema dos cartões de crédito é que eles levam as pessoas a tomarem decisões financeiras estúpidas. Os cartões tornam as tentações mais difíceis de resistir, então as pessoas gastam um dinheiro que não têm.

Quando se compra algo com dinheiro, a compra envolve uma perde real, sua carteira fica ligeiramente mais leve. Mas os cartões de crédito transformam a operação em algo abstrato, de modo que não se sente o lado ruim de gastar dinheiro. A natureza dos cartões de crédito asseguram que seu cérebro esteja anestesiado contra a dor do pagamento. O ato de gastar dinheiro não se torna associado a uma sensação ruim, então você gasta mais.

As emoções ficam excitadas com a perspectiva de uma recompensa imediata, mas não conseguem compreender realmente as consequências fiscais da decisão a longo prazo. O cérebro emocional simplesmente não compreende coisas como taxas de juros, pagamentos de dividas ou custos financeiros.

Como seria viver uma vida sem sentimentos?

Lehrer ainda alerta sobre os perigos de pessoas que sofrem com a perda da parte emocional do cérebro, como os autistas, que possuem dificuldades em reconhecer os sentimentos dos outros, e os psicopatas, que reconhecem as emoções alheias, no entanto, não reagem a elas.

Para ambos os casos, o sentimento altruísta, ou seja, o comportamento que nos faz agir de forma a beneficiar outras pessoas, é inexistente. Para os que não possuem tal lesão, aqui vai uma dica, para despertar o sentimento altruísta em outras pessoas, basta com que você faça que elas sintam o sentimento dos outros.

Pesquisas apresentadas no livro mostraram que, quando os participantes do estudo imaginavam com intensidade os sentimentos dos outros, estes desejavam fazer com que essas pessoas se sentissem melhor, mesmo que para isso elas tivessem que se sacrificar.

Quando você age moralmente – quando evita a violência, é justo com as pessoas e ajuda estranhos que estejam passando necessidade, está tomando decisões que levam em consideração outras pessoas além de si próprio. Você está pensando no sentimento dos outros, simpatizando com o estado mental das pessoas, é isso que os psicopatas não conseguem fazer.

Os psicopatas são perigosos porque possuem cérebros emocionais danificados. Portanto, tal vazio emocional que você acha que possui, é na verdade uma patologia rara, típico dos psicopatas. Os psicopatas cometem crimes violentos porque sofrem CARÊNCIA DE EMOÇÕES, ou seja, suas emoções nunca dizem a eles para não cometê-los.

A ilusão do custo-benefício e o prazer artificial gerado pelas lojas.

Os consumidores não são sempre motivados por considerações cuidadosas de preços e de utilidade esperada do produto. Você não olha para o grill elétrico ou para a caixa de chocolates e executa uma análise explícita de custo-benefício. Em vez disso, terceiriza boa parte dos cálculos para o cérebro emocional e passa a recorrer a quantidades relativas de prazer versus dos para que lhe digam o que comprar. Resumindo, a emoção mais intensa tende a ditar as decisões de compras.

Você já se perguntou por que itens de desejos como televisores LCD são posicionados nas entradas das lojas de departamentos? Assim como outros produtos de luxo são cuidadosamente alocados nos corredores por onde os clientes mais passam?

O objetivo de tais lojas é atender constantemente os centros de prazer do cérebro, para que desejemos coisas das quais não precisamos. Apesar de que, provavelmente, você não venha a comprar aquela TV cara, simplesmente olhar para ela faz com que você deseje comprar outra coisa, pois o item desejado ativa seu Nacc. Você foi condicionado a desejar obter uma recompensa.

Quando as lojas de departamentos asseguram à ínsula que os preços baixos são “garantidos”, que algum produto específico esteja em promoção ou que está sendo vendido a “preço de custo”, a ínsula para de se preocupar tanto com a etiqueta de preço, e é por isso que você acaba comprando aquilo que não precisa.

O perigo do Viés da Confirmação

Quando ficamos prisioneiros das próprias concepções, relutamos em considerar possibilidades dissonantes e mantemos a mente fechada. Se você toma lado em uma discussão, ficará cego as demais opiniões e abraçará com vigor aquelas que defendem o seu ponto de vista. Para livrar-se desse viés, é necessário encorajar alguma dissonância interna. Precisamos manter foco nas informações sobre as quais não queremos pensar e prestar atenção aos dados que perturbam nossas crenças mais profundas.

Uma boa saída é gerar conflitos de conclusão, ou seja, quando você perceber que uma pessoa tem certeza sobre um fato, você deve apresentar algo contrário. Era isso que fazia o ex-presidente americano Abrahan Lincoln, que formou intencionalmente seu Gabinete com políticos rivais cujas ideologias eram extremamente diferentes.

Quando tomava alguma decisão, Lincoln sempre estimulava debates e discussões vigorosas. Seus rivais que inicialmente perceberam isso como uma fraqueza, mais tarde entenderam que sua capacidade de tolerar a discórdia era um recurso muito valioso.

Resista ativamente ao impulso de eliminar a discussão, de a si próprio tempo para ouvir o que todas as partes diferentes do cérebro tem a dizer.

Conclusão

Durante tempo demais presumimos que o propósito da razão fosse eliminar as emoções que nos desencaminham. Aspiramos atingir o modelo platônico de racionalidade, no qual o cocheiro tem controle total. Mas sabemos agora que silenciar as emoções humanas não é possível, pelo menos não diretamente.

Todos os adolescentes querem sexo e todas as crianças de 4 anos querem marshmallows. Todo bombeiro que vê uma muralha de chamas quer fugir correndo. As emoções humanas são embutidas no cérebro em um nível muito básico. Elas tentem a ignorar instruções. Ou seja, silenciar as emoções é praticamente impossível, é preciso controlá-las.

As pessoas mais racionais não percebem menos as emoções, simplesmente as regulam melhor. E como regulamos nossas emoções, simples, pensando a respeito delas. Todos podem ficar com raiva, é muito fácil,mas ficar com raiva da pessoa certa, na intensidade apropriada, na hora certa, pelo motivo certo e do jeito correto, isso não é nada fácil.

O cérebro sempre aprende, do mesmo jeito, acumulando conhecimento por meio de erros. Não existem atalhos para esse processo árduo: tornar-se um especialista simplesmente requer tempo e prática.


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