[Resenha] O Princípio do Progresso


O segredo de um desempenho assombroso é dar condições e poder a pessoas talentosas para que obtenham sucesso em realizar um trabalho significativo. Parece simples não é mesmo? Mas como fazer para medir se esse desempenho está sendo alcançado ou não?

É exatamente essa a promessa do livro O Princípio do Progresso: como usar pequenas vitórias para principio-do-progressoestimular satisfação, empenho e criatividade no trabalho, escrito pelos pesquisadores de Harvard Steven Kramer e Teresa Amabile. Donos de uma das metodologias mais inteligentes que eu já li sobre medição de desempenho em ambientes de trabalho, os autores coletaram cerca de 12 mil registros diários que foram fornecidos por centenas de empregados, em várias organizações diferentes.

E por falar em coleta de dados, dentre as várias perguntas disponíveis nos questionários, aquela em que os pesquisadores pediam para que os funcionários descrevessem como se sentiam em um determinado evento marcante em seu dia de trabalho atual, positivo ou negativo, e como isso havia afetado sua motivação, em minha opinião, foi a mais relevante de todas. Foi justamente ela que deu sustentação para a conclusão desse trabalho.

Explicado a metodologia, agora vamos aos conceitos.

A vida interior no trabalho

TUDO no livro gira em torno desse termo. Essa é a tese central dos autores. Quando você a entende, o livro passa a fazer sentido e se torna algo extremamente simples.

Para eles, quanto maior a vida interior no trabalho, maior será a capacidade do funcionário em gerar resultados. Por resultados entende-se o aumento de produtividade, de criatividade, etc…

Mas a grande questão agora é tentar entender o que exatamente significa a vida interior no trabalho. Então mãos à obra!

Definindo a vida interior no trabalho

Vida interior no trabalho são as percepções, emoções e motivações não verbalizadas que as pessoas vivenciam à medida que reagem e compreendem em termos lógicos os eventos de um dia de trabalho. A curto prazo, uma vida interior ruim compromete o desempenho individual; a longo prazo, pode afundar até um titã.

As ações observáveis em uma organização formam apenas a ponta do iceberg; a vida interior no trabalho é o enorme volume escondido sob a superfície da água. Quando anda pelos corredores de seu local de trabalho, você pode ver e ouvir pessoas fazendo apresentações para gerentes, trocando ideias com colegas, pesquisando na internet, conversando com clientes, participando de reuniões, ou fazendo experimentos. Esta é a vida no trabalho observável, a parte visível do que cada indivíduo faz, o que se poderia ver ao olhar para as atividades diárias de todo mundo.

O que você provavelmente não vai observar são os julgamentos sobre a indiferença das chefias durante a apresentação, os sentimentos de triunfo durante a conversa com o cliente ou a motivação apaixonada para solucionar um problema infernal durante um experimento. Essa é a verdadeira vida interior no trabalho do qual o autor se refere.

Os três componentes da vida interior no trabalho

Emoções: são ao mesmo tempo reações fortemente definidas e sentimentos mais genéricos, como bons ou maus humores. É a alegria que você sente quando finalmente soluciona um problema difícil, ou a frustração quando suas soluções falham. As emoções também variam de acordo com duas dimensões principais: o grau de prazer e o grau de intensidade. Você pode estar ligeiramente aborrecido por uma breve queda no sistema da empresa ou furioso por uma resposta petulante a uma ideia que você apresentou em uma reunião. Ambas são emoções desagradáveis, mas a última é bem mais desagradável e bem mais intensa.

Percepções: podem variar de impressões imediatas a teorias plenamente desenvolvidas sobre o que está acontecendo e o que isso significa. Podem ser simples observações sobre evento em um dia de trabalho, ou podem ser julgamentos sobre a organização, seu pessoal e o trabalho em si. De maneira interessante, geralmente você não tem consciência desse processo. Pessoas de verdade têm passado, histórias reais de vida anterior no trabalho, e formam percepções com base nesse passado.

Motivações: são três os tipos de motivações que alteram a vida interior no trabalho: intrínseca, extrínseca e altruísta. Como esse é um tema bem amplo, sugiro que você leia o texto Como funciona a motivação no trabalho.

O que contribui e o que contamina a vida interior no trabalho

Segundo os autores, 4 são as variáveis capaz de potencializar ou afundar a vida interior no trabalho. São elas:

Catalisadores e Nutridores:

são ações que apoiam diretamente o trabalho, inclusive qualquer tipo de ajuda de uma pessoa ou grupo relacionado ao trabalho. Às vezes, pequenos gestos de um líder não é percebido por ele, mas muito valorizado pelo seu funcionário, como um bilhete escrito a mão.

Você nutre a vida interior no trabalho de seus subordinados quando:

  • Premia ou reconhece o seu bom desempenho
  • Os encoraja ou oferece apoio emocional
  • Promove a franca troca de ideias
  • Trabalha para garantir recursos suficientes e prazos razoáveis
  • Esclarece metas e fornece autonomia
  • Ajuda resolver conflitos interpessoais a criar oportunidades para que as pessoas realmente se conheçam, ou
  • Apenas permitir que elas se divirtam um pouco.

Inibidores e Toxinas:

é o oposto dos catalisadores e nutridores. Nesse caso seria deixar de dar apoio ao projeto ou à pessoa, bem como ativamente prejudicar o trabalho ou, de alguma forma, desrespeitar a pessoa.

Entre as ações que negam o valor do trabalho, podemos citar:

  • Ter seu trabalho e ideias descartados por líderes ou colegas de trabalho,
  • Perder o sentido de propriedade de seu próprio trabalho,
  • Fazer os funcionários duvidarem do que o que estão fazendo terá alguma utilidade
  • Sentir que é qualificado demais para muitas das tarefas específicas que lhes pedem que desempenhem.

O Princípio do Progresso

Finalmente chegamos ao que interessa. Uma vida interior no trabalho positiva resulta no que eles chamaram de Princípio do Progresso.

Facilitar o progresso é a forma mais eficaz para gestores influenciarem a vida interior no trabalho. Mesmo quando o progresso acontece em pequenos passos, o sentido que se tem de movimento constante em direção a uma meta importante pode fazer toda a diferença entre um dia maravilhoso e um dia terrível.

Para entender como o Princípio do Progresso funciona, basta que você considere todos os acontecimentos diários em uma empresa, inclusive fatos que possam parecer triviais, e a partir daí procurar eventos positivos e negativos. Qualquer coisa que tenha corrido bem, ou melhor do que se esperava para sua equipe, ou para o trabalho de qualquer pessoa em particular, é um evento de progresso. Qualquer fracasso, ou desapontamento no trabalho, é um revés.

Ou seja, se os funcionários estão com um excelente humor ao final do dia, é bem provável que tenham feito algum progresso em seu trabalho. Se estão com um humor terrível, é bem possível que tenham tido um revés. Em grande medida, a vida interior no trabalho ascende e cai com progressos e reveses.

Por fim, quando os funcionários se sentem desrespeitados, desvalorizados ou explorados – a vida interior no trabalho azeda. Do contrário, quando nossos colegas se tornam uma espécie de família para nós, o trabalho pode adquirir um novo significado em nossa vida.

Insights

Pequenas perdas podem anular pequenas vitórias. Se quiser fomentar uma excelente vida interior no trabalho, concentre-se primeiro em eliminar os obstáculos que causam reveses. Por quê? O efeito de reveses sobre as emoções é mais do que duas vezes mais forte do que o efeito do progresso.

Comportamentos negativos do líder afetam mais a vida interior no trabalho do que os comportamentos positivos dessa liderança. Os funcionários se lembram mais de ações negativas de seus líderes do que se lembram de ações positivas, e se lembram mais intensamente e com mais detalhes das ações negativas do que das positivas. Mesmo suas menores ações para remover os obstáculos que impedem o progresso de indivíduos e equipes podem fazer uma grande diferença para a vida interior no trabalho e para o desempenho global.

Qualquer canto afeta o desempenho. Os efeitos negativos sobre a vida interior no trabalho não se limitam aos personagens principais de um conflito interpessoal. Inevitavelmente, haverá repercussões, contaminando toda a equipe e tornando mais lento o progresso de todo mundo (um funcionário vê e escuta brigas em outros departamentos).

Conclusão

O ciclo do progresso é a arma secreta das empresas de alto desempenho; ele produz uma situação poderosa, em que ambas as partas só têm a ganhar, tanto administradores quanto funcionários.

Para aproveitar essa força poderosa, você deve se certificar de que o avanço em trabalho significativo seja uma ocorrência regular na vida profissional cotidiana de seus funcionários, a despeito dos inevitáveis reveses que todo trabalho não trivial acarreta.

No mundo real, o pêndulo só continua a se mover se alguém der conta no relógio. De modo semelhante, como administrador, você tem que manter o loop do progresso em movimento, facilitando continuamente o progresso e removendo obstáculos.

Se você se concentrar em apoiar o progresso diário daqueles que trabalham em sua organização, não somente fomentará o sucesso da empresa, mas também enriquecerá a vida cotidiana de seus funcionários.


Gostou? Se quiser ler a obra completa, tem disponível no Submarino


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