[Resenha] Quebrei: guia politicamente incorreto do empreendedorismo


LIVRO_Quebrei_(Large)Minha história se encaixa no aforismo “vô rico, filho nobre, neto pobre”, e eu, infelizmente, sou o neto. Foram essas palavras que me fizeram criar interesse para comprar a obra do exempreendedor brasileiro Leonardo de Matos, autor de Quebrei: Guia Politicamente Incorreto do Empreendedorismo.

Com a proposta de quebrar o mito do sucesso fácil e imediato que glorifica as histórias sobre empreendedorismo existentes no mercado, o autor, que alega que a ideia de suicídio já lhe ocorreu após sua empresa quebrar, vai na contramão de tudo o que é publicado nos portais de notícias sobre o assunto. Se fosse para resumir em uma frase, eu diria que o livro procura abordar o lado negro do empreendedorismo, o que segundo o autor, é pouco divulgado na mídia por um simples motivo: o fracasso não vende.

Abaixo estão as principais passagens do livro:

Se a grama do vizinho parece mais verde, talvez você esteja olhando demais para a dele, e esquecendo de regar a sua.

Geralmente quando percebemos que as coisas vão mal para o nosso lado, começamos a perguntar aos outros, do mesmo ramo, como vão as coisas para eles. E, inconscientemente, torcemos por ouvir que eles também estejam passando por dificuldades. De certa forma, quando não estamos sozinhos na desgraça nos sentimos consolados, menos incompetentes.

Pensamos assim, porque se as coisas estiverem feitas para todos não precisamos justificar ou assumir nosso fracasso; o difícil é ouvir ou observar que os concorrentes estão indo bem ou que, pelo menos, estão enfrentando a suposta crise de forma sensata, por isso evidência a nossa incompetência.

As contraindicações de uma crise

Em momentos de crise, a saúde e a beleza são afetadas, uns comem demais e engordam, outros comem de menos e emagrecem e outros envelhecem precocemente por dormirem mal e pouco. Há também aqueles que ficam doentes, sofrem com dores.

Trata-se de um estado de desarmonia total, caótico, no qual o corpo sofre as pressões da mente e, o que é pior, os relacionamentos ficam comprometidos, você para de enxergar as qualidades das pessoas, fica mal-agradecido, deixa de agradecer e reconhecer aqueles que estão sempre ao seu lado, fazendo o melhor e salvando você, enfim, vira um burro, e perde pessoas.

Uma empresa prospera é aquela que já conseguiu provar que o tempo, as crises, os pacotes econômicos do Brasil e as mudanças de tendências da cliente não a atingem. Uma empresa considerada bem sucedida é aquela que, literalmente, sobrevive aos solavancos da economia brasileira e, por que não dizer, às exigências crescentes da cliente que se sente em um momento da de ascensão social.

Você precisa saber que a maioria das empresas leva, no mínimo, três anos para começar a engatinhar. Não é, exatamente, que em três anos você nadará de braçadas; este tempo é apenas o necessário para que você consiga ter um capital de giro próprio, alguns clientes conquistados e algum conhecimento do negócio. Logo, você, candidato a empreendedor, tem três anos de dinheiro para bancas suas despesas pessoais e seu próprio negócio? Pois ele vai consumir, mensalmente, muito mais que um bebê prodígio e birrento.

Portanto, antes de pensar em expandir, em projetos inconsequentes para crescer, assegurese de que você está trabalhando por um bom tempo, acima do seu ponto de equilíbrio.

Nos negócios, o único milagre que existe se chama capacidade empreendedora, que você encontra em um único lugar: em você.

Montar uma empresa é ficar preso ao negócio.

Às 18 horas “a caneta não cai”, como quando se trabalha para os outros, principalmente para o governo, pois você é o empreendedor. Não tem essa de correr para pegar o ônibus das 18h10, min. E pode acreditar, as contas chegam depois das 18 horas. Não basta trancar o cofre cheio de papeis e ir embora assistir à novela das oito.

Você não é livre. Até em um passeio de final de semana, com as pessoas que você gosta, sua empresa estará lá, acorrentada aos seus pés, invadindo sua vida pelo Whatsapp. Uma ilusão constante é achar que o empresário é dono da empresa.

Não é. Tenho uma notícia aterrorizadora para você: a empresa é sua, mas não é você quem manda nela. Por mais patrão que um dia você possa se sentir, o dono da sua empresa são todos os outros que vêm antes de você na ordem prioritária de pagamentos.

O primeiro deles é o Governo. Depois seus funcionários, seus fornecedores e seus prestadores de serviço. Depois, os bancos. Daí vêm as despesasfixas (agua, luz, telefone, internet, seguro, alarme). Seguido das despesas variáveis (matérias-primas que compõem o produto).

O próximo dono são as despesas extras e inesperadas (pode acreditar, todo mês elas aparecem, em forma de privada que entope, uma parede que manchou, um segundo frete mal pato, etc). E se sobrar alguma coisa, você, com seu devido pró-labore, é o próximo.

E caso haja um “saldinho”, é a vez da empresa receber para poder continuar crescendo. No caso do faturamento ter parado no meio do caminho dos pagamentos, é você quem arcará com o restante de qualquer maneira.

Os riscos da inadimplência

A inadimplência é outro assunto cruel. Muitos empresário já quebraram por causa da inadimplência. É mais interessante e seguro ter uma clientela pulverizada a ter um único cliente grande e consolidado, pois ele pode quebrar e levar você junto ou trocá-lo por outro fornecedor. Os inadimplentes desenvolvem inúmeras estratégias para não pagar.

Cito abaixo alguma delas:

Foram viajar
O carro quebrou
O filho ficou doente
O muro da casa caiu
A avó morreu
Foram roubados
Passarão para pagar amanhã, sem falta.
Já depositaram na conta e você é que ainda não conferiu (essa é a melhor).

Ainda sobre caloteiros, muito cuidado com depósitos bancários feitos em caixas eletrônicos, porque você só consegue ter certeza de que havia dinheiro no envelope no dia seguinte. Atualmente, é bastante comum o caloteiro mostrar um comprovante de deposito feito com o envelope vazio.

Então, se você entregar ou enviar mercadoria para este cliente terá prejuízo na certa. Há mais um detalhe: abordar um devedor demanda sutileza e precisa ser de forma inteiramente legalizada, pois se você usar o Facebook ou qualquer mídia social para cobrar o inadimplente, ele ainda pode processá-lo por calunia e difamação. Se você presta serviços, está em situação ainda pior para ser ressarcido, já que não é possível devolver serviços, diferente de carro, casa, e até roupa. Prestação de serviço não tem devolução;

Um empresário experto, quando sai para comprar um produto ou serviço e é mal atendido, se descabela ao pensar: “será que isso está acontecendo na minha empresa também?”

Tentação de Noé

Acontece quando você começa a colocar tudo o que encontra pela frente – boiando, afundando, derrapando, deslizando e rastejando – para dentro do seu negócio, em uma iniciativa maluca de salvar de algum jeito o negócio.

Quando estão indo para o buraco, passam a vender para clientes que estavam com problemas no SPC e SERASA. Resultado, costumam levar um baita prejuízo. Seria melhor se eu não tivesse vendido, pelo menos era uma coisa a menos para se revoltar.

Para fazer um empreendimento durar, é necessário fazer o óbvio

Você tem que estudar e analisar profundamente o mercado no qual vai atuar: óbvio. Você tem que atender bem os seu clientes: óbvio. Você tem que comprar bem para ter lucro: óbvio. Você tem que contratar bons funcionários: óbvio. Tem que ter dinheiro em caixa: óbvio.

Repare nisso e veja o quanto é simples e ao mesmo tempo o quanto é difícil pôr o óbvio em prática.

Insights

Em planejamento existe uma máxima: o papel aceita tudo. A dificuldade real está em cumprir o que foi escrito, além de inúmeros fatores aleatórios que interferem na execução do planejamento e na obediência ao cronograma.

Cobre sempre e diariamente toda a equipe para que se cumpra o resultado. Procure definir metas semanais, pois as mensais, apesar da notícia ser velha e todo mundo saber, os vendedores vão deixar para tentar alcança-las somente nos últimos dias do mês.

Empreender com sucesso, em sua carreira ou em sua empresa, prescinde de foco. Você não tem foco? Acha que tem falta de concentração? Fica fazendo um monte de coisa ao mesmo tempo e não termina nenhuma? Não tem problema. Você, apenas, demorará três vezes mais tempo para fazer sucesso com sua empresa ou quebrará três vezes mais rápido. Mas e daí, não é?

Se o seu negócio é apenas dinheiro, vire caixa em uma agencia bancaria. O lucro, apesar de tudo, é uma consequência da dedicação ao trabalho que você realiza. Primeiramente, crie relacionamento e, depois, faça negócios. Todo negócio provém de uma relação. É preciso ter um grupo de pessoas para falar sobre empresas, para trocar informações sobre clientes, para ter algum insight sobre estratégias.

Muitos empresários também já foram funcionários. Antes de casar, você namora a pessoa amada para conhece-la melhor e vê se é ela mesma que você deve escolher. No empreendedorismo, faça o mesmo, namore o tipo o tipo de empresa que quer montar. Se for montar uma padaria, procure saber tudo sobre padaria, desde a arquitetura mais atraente, até o que fazer com as sobras de pãezinhos franceses.

Nunca contrate quem você não possa demitir – os motivos para se ter alguém da família como sócio, ou funcionários de confiança são bastante românticos, entretanto, igualmente traiçoeiros.

Em negócios, não tem ninguém com calça 20, não é lugar para crianças. Empreender, na atualidade, é assunto para gente preparada, motivada, dotada e treinada em condições duríssimas de sobrevivência. Não há espaço para amadores e praticantes juvenis da arte de empreender.

Share of Wallet (porcentagem do produto no orçamento do consumidor). Sua briga para deslanchar o seu produto é também com a prestação da casa do cliente, a prestação do carro dele, do seu celular, do seu plano de saúde, da mensalidade da TV a cabo, e até, do cachorro quente e da pizza do domingo, pois ele somente entrará na sua loja depois que pagar as prestações acima mencionadas. E, é bom mesmo que seja assim, caso contrário, você levará calote porque ele não terá dinheiro para pagar as suas prestações.

É necessário preparar-se para a quebra, da mesma forma que um piloto de avião prepara os passageiros para uma queda. Você também tem a obrigação de preparar-se de avisar àqueles que trabalham com você e dependem de sua empresa que eles devem apertar os cintos e se preparar para o impacto. Como o ser humano que começa a apresentar quadro de arritmia, alteração brusca na contagem de plaquetas e instabilidade cardíaca, a empresa também apresenta seus estados de insuficiência

O cliente não vai comprar na sua empresa só porque você acordou e usou a força do pensamento. Ele vai comprar na sua loja por causa da atitude positiva que você realiza no seu atendimento, do seu bom humor e do produto que ele busca. Pensamento positivo é importante, mas mude para atitude positiva.

Empreender, por vezes, implica em uma dose de sujeição à ilegalidade. Se você for ficar encucado porque sua loja de conveniência está sujeita, mesmo apesar dos cuidados que você toma, a vender bebida alcoólica para um menor com identidade falsa e correr o risco de ser multada, é melhor você deixar o empreendedorismo para os outros. Nesses outros, incluemse o número de aventureiros de final de ano, que se embrenham no empreendedorismo se iludindo com um final de ano bom.

Conclusão

Acredito que a intenção do autor ao tentar alertar as demais pessoas sobre os riscos existentes do empreendedorismo foi uma excelente ideia, porém, na minha opinião, o livro pecou pelo excesso de pessimismo pelo fato de ter sido baseado unicamente na história de vida do autor. É como se um ex-jogador tentasse alertar os outros que o mundo do futebol é perda de tempo porque ele não conseguiu prosperar. Em outras palavras, o livro transborda desânimo, um verdadeiro manuscrito de lamentações.

Acho importante citar esse fato porque ao longo desses meus 5 anos escrevendo sobre negócios, aprendi a duras penas que, além de um comentário imparcial sobre os riscos que qualquer negócio possui, os leitores também buscam palavras de incentivo, de que mesmo sabendo que existem inúmeras dificuldades na abertura de uma empresa, ter o seu sonho realizado é sim possível. E infelizmente, o autor não optou por esse caminho, uma pena.

Como já dito anteriormente, acredito ser importante conhecer os erros que alguém cometeu antes de alguém iniciar o caminho que ele deseja seguir, mas não sob o risco de fazer essa pessoa desistir do seu sonho. Creio que se for para não dar certo, a pessoa deve pelo menos ter a consciência tranquila de que fez o máximo que podia para conseguir, e não porque outra pessoa lhe afirmou que isso seria impossível.

Por se tratar de um livro nacional, é uma excelente leitura, entretanto, é necessário cuidado para não se deixar contaminar pelo excesso de pessimismo apresentado.


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