[Resenha] Um País Chamado Favela


pais-favelaA favela, apesar de seus dramas e suas deficiências, é hoje o lugar dos emergentes, dos que costuram esperanças, onde são gerados 63 bilhões de reais, valor que corresponde ao PIB de países como Bolívia e Paraguai. Se compusessem um estado, as favelas seriam o quinto mais populoso da federação.

Se durante o século XX, ela foi sinônimo de problema que o poder público deveria antes remover do que resolver, hoje ela começa a ser vista por muitas empresas como um promissivo mercado consumidor. São essas afirmações que Renato Meirelles e Celso Athayde, usaram para compor sua obra Um País Chamado Favela. Utilizando-se de uma metodologia investigativa, onde 2 mil pessoas espalhadas em 63 favelas em dez regiões metropolitanas do Brasil puderam expressar suas opiniões por meio de um questionário, a obra busca quebrar o estereótipo criado pela mídia, onde os moradores das comunidades são retratados como miseráveis incultos, indolentes e bárbaros.

Entretanto, não foi bem isso que os pesquisadores encontraram… Confira!

Viver na favela é, sobretudo, construir laços.

Apesar de antigamente as favelas serem referenciadas como “fonte do mal”, onde sua extinção, ou seu deslocamento, era uma exigência de saúde pública, mantê-las era preciso pois significava disponível e barata a força de trabalho feminina para o emprego doméstico nas residências da classe média, era conveniente contar com porteiros e prestadores de serviço, operários e mão de obra explorável por perto, capaz de sobreviver com o mínimo e comparecer com pontualidade.

Mesmo com todo esse passado de dificuldades, atualmente 94% dos moradores que residem nas favelas se consideram pessoas felizes. Por essa você não esperava, acertei?

Se existe amor e fidelidade ao lugar, a principal razão é o estabelecimento de fortes laços sociais entre os moradores. Ali o cidadão tem quase sempre com quem contar. Há alguém que pode lhe emprestar algum dinheiro ou o cartão de crédito na hora do aperto, há outro que pode tomar conta de seus filhos enquanto ele trabalha. E há sempre aquele que pode ouvir suas confissões no “divã” improvisado no boteco ou no salão de beleza. A lei da reciprocidade impera na favela.

O preconceito aos moradores

Gente poderosa no país ainda considera a favela apenas como um problema, quando deveria enxerga-la também como o lar de muita gente e uma fonte de oportunidades. Neste país, parcela importante da elite incomoda-se com a presença das massas, antes excluídas, no mercado das compras. Conservadores, que criticam fortemente a maneira como estado tem oferecido suporte a projetos de melhorias nas favelas. Como sempre, veem desperdício do que pagam na forma de impostos.

O choque derivado da mudança está expresso na repulsa de certos setores sociais pelos pobres que viajam de avião, pelos negros que ingressam na universidade a partir do sistema de cotas, pelas empregadas que conquistam direitos trabalhistas, pelos proletários que adquirem veículos automotores e até pelas famílias que superam a fome por causa do programa Bolsa Família.

O que falta para um, pode sobrar para o outro

A favela é extremamente heterogênea, pode se iniciar em um centro de comércio desenvolvido, com caprichadas casas de alvenaria, e terminar, no outro lado do morro, em uma área de risco, de difícil acesso, em que se equilibram humildes barracos de madeira.

De um lado pode ter um cidadão passando dificuldades para sustentar sua família e pagar a prestação do colchão do filho, e do outro o vizinho comendo filé-mignon com cogumelos, planejando a aquisição de uma banheira com hidromassagem para tornar o espaço da laje mais amigável

A favela e o Empreendedorismo

Nas áreas pacificadas perdeu-se o “investimento” do tráfico. De uma forma ou de outra, ele aumentava o volume de dinheiro circulante nas favelas. Os membros das organizações compravam no comércio local, patrocinavam eventos na área de entretenimento e, muitas vezes, ainda praticavam algum assistencialismo, auxiliando a mãe desesperada a comprar um antibiótico para o filho ou pagando um táxi para que o idoso pudesse deslocar até o hospital.

Sem o comercio das drogas, o estado tem sido desafiado a substituir esse poderoso motor econômico local. O Sebrae tem sido ator importante nesse processo de reengenharia de negócios. Gente que sempre viveu de salário cogita, agora, montar uma empresa na comunidade.

Entretanto, os autores alertam que não se pode praticar ali, na ladeira das dificuldades, a mesma taxa de juros aplicada aos negócios convencionais do asfalto. São realidades diferentes. Cada qual precisa ser examinada em sua singularidades.

As particularidades dos moradores

Alguns distintos grupos de pessoas foram identificados pelos pesquisadores:

As mães que residem na favela movem mundos e fundos para obter os melhores produtos para seus filhos, especialmente nas áreas de alimentação, higiene pessoal e medicamentes. Vale adiar o passeio dominical e, com o recurso poupado, adquirir aquele ótimo xampu que hidrata, restaura e perfuma. Sua tarefa prioritária é evitar a todo custo o bullying e a rejeição nos ambientes de trocas sociais

Já para outro morador, esse com um perfil mais jovem, o importante é um calçado bonito e de qualidade. Quando embolsou o fruto financeiro de um trabalho, não hesitou em empenhá-lo na compra de um tênis de marca. “Eu quero usar um desses no pé, calar coisa boa, é nisso que vou gastar as minhas economias. Aqui vale citar um parênteses descrito pelos autores: a pequena burguesia é que gosta de pirataria.Para o favelado, a aquisição do produto original é que faz a diferença.

Para os jovens que em 2014 vestem roupas de grife, comunicam-se por smartphones e ingressam em universidades, as letras rebeldes e angustiadas perderam em parte o sentido. Para muitos, o sonho maior é mergulhar no mundo do consumo e não contestar o sistema. Por isso o RAP perdeu o seu espaço

E finalmente um terceiro, esse caracterizado como um pai de família, que relatou que o fundamental era adquirir boa carne para seu churrasco de fim de semana. Citava outras duas prioridades: ter na cuia o chimarrão preferido e na geladeira sua cerveja predileta. “Isso não pode faltar, é minha prioridade”.

Conclusão

Para um observador externo, a favela pode ser o lugar mais feio do mundo, desconexo, assimétrico e desprovido de estéticas formais. A reprodução obsessiva desse estereótipo se deve, sobretudo, ao roteiro do noticiário policial espetacularizado. Na falta de conhecimento profundo sobre o assunto, apela-se ao modelo raso de representação, já impresso na memória coletiva.

Depois das incursões realizadas por favelas de todo o pais, os autores concluíram que as favelas tratam-se de ambientes muito heterogêneos. Há favela pavimentada, pintada, cujas pracinhas têm aroma de desinfetante. Outras seguem na precariedade absoluta, agarradas em desespero sobre o morro com chão de pudim, rezando pela generosidade de São Pedro.

Por fim, se a favela necessidade urgentemente das facilidades e dos engenhos do asfalto, não nos parece incorreto afirmar que a cidade, muitas vezes afogada em interesses mesquinhos, precisa importar saberes e valores da favela.


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