Solidário para alguns, mas não para todos


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Olá caros leitores, estamos próximos de mais um Criança Esperança e por MUITA coincidência eu acabo de ler um capítulo do excelente livro Positivamente Irracional onde o autor Dan Ariely faz um profundo estudo sobre o por que nós nos comovemos tanto para ajudar uma determinada pessoa vítima de uma tragédia mas no entanto, quando se trata de amparar várias vítimas de uma tragédia maior, mostramos indiferença e não agimos da mesma forma.

O autor começa o texto contando uma história de uma garotinha de 18 meses chamada Jessica McClure, que em 1987 ficou famosa por cair em um poço de água abandonado no Texas, com sete metros de profundidade.

A pobre menina, que ficou presa por quase 60 horas, mobilizou todo o país, tendo inclusive uma cobertura intensa da importante rede de televisão CNN.

Alguém me ajuda?

A questão que o autor levanta é a seguinte, porque esse caso recebeu maior cobertura que o genocídio de 1994 em Ruanda, no qual mais de 800 mil pessoas foram brutalmente assassinadas em 100 dias?

Em outras palavras, por que quando somos induzidos a cuidar de um indivíduo, partimos para a ação; mas quando a questão envolve muita gente, não fazemos nada?

O próprio autor admite que essa questão é bastante complexa e que vários pesquisadores estão tentando encontrar a resposta exata , porém ele, com base em suas pesquisas, afirma que agimos dessa forma porque somos influenciados por algo que os estudiosos chamam de “Efeito da Vítima Identificável”, ou seja, quando temos um rosto, uma imagem e detalhes sobre alguém, sentimos pena, e nossas ações – e dinheiro – seguem como conseqüência.

Contudo, quando a informação não é individualizada, simplesmente não sentimos tanta empatia, e em conseqüência, não agimos.

Entretanto, apenas o fato de nos identificarmos com a vítima é apenas o começo, e ele em si ainda não é suficiente, há ainda um conjunto de 3 fatores psicológicos que nos induzem a partir para a ação (e doação), são eles: a Proximidade, a Vividez e a “Gota no Balde”.

Proximidade – é o fato de você estar perto da vítima, envolve o sentimento de afinidade que você sente por pessoas próximas. Somos muito mais propensos a oferecer dinheiro a um vizinho que perdeu um emprego altamente remunerado que a um sem-teto desconhecido. E relutamos mais ainda em ajudar alguém que perdeu a casa num terremoto, a cinco mil quilômetros de distância.

Vividez – é a intensidade com o qual a fatalidade é mostrada. Se eu lhe disser que me cortei, você não tem a imagem completa do acidente e não compartilha minha dor. Mas se eu descrever o corte em detalhes, com voz chorona e olhos marejados, enfatizando com cores intensas a profundidade da ferida, você disporá de imagem mais vivida da situação e se solidarizará comigo de maneira muito mais intensa.

Gota no Balde
– tem haver com você acreditar que sozinho é capaz de ajudar as vitimas de uma tragédia, ou seja, acreditar que a sua doação, por menor que seja, fará alguma diferença para essas pessoas.

Agora quero dar um exemplo prático de como tudo isso funciona. Caso você ainda não se lembre, no início do texto eu citei um dos programas sociais mais conhecidos do Brasil não por acaso, talvez você nem se dê conta, mas muitas variáveis te influenciam a pegar o telefone e discar aquele número enorme para fazer uma doação.

Quero mostrar que a televisão sabe mais do que ninguém que a melhor forma de nos tornamos solidários e zelosos é quando nossas emoções são despertadas. Vamos ver como eles fazem isso.

Psit, ô da poltrona!

Psit, ô da poltrona!

No desenrolar do programa, você percebe que são contadas histórias de algumas crianças cuidadosamente escolhidas (Efeito da Vítima Identificável) e também percebe que essas histórias não são contadas de maneira supérflua, pelo contrário, o sofrimento das crianças é mostrado de maneira profunda e intensa (Vividez).

Além disso, as histórias são contadas nas mais diversas cidades para que assim você se identifique ainda mais com as pessoas (Proximidade). E o mais interessante, você já reparou que a todo o momento o montante das doações é anunciado?

Isso é uma excelente forma de amenizar o fator Gota no Balde, agindo assim eles realmente dão a impressão de que nossa doação realmente está fazendo a diferença, afinal os números não param de subir!

Mas calma lá, antes que alguém comece a ficar nervoso, o meu objetivo com esse texto não é fazer com que as pessoas deixem de serem solidárias, muito pelo contrário, só queria demonstrar que se acaso algum dia você for o responsável por angariar fundos para algum projeto social (e acredite, isso não é uma chance remota de acontecer), você já sabe por onde começar!

Procure pensar especificamente em ajudar uma certa pessoa que esteja sofrendo, talvez a pobre mãe que perdeu seus 5 filhos na tragédia, ou o garotinho que apesar do talento, não tem recursos suficientes para freqüentar sua escolinha de futebol, partindo desse ponto o resto fica tudo mai fácil.


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