Super empreendedores e o Cemitério dos Esquecidos


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Caro leitor que acompanha constantemente as notícias divulgadas nos portais de negócios, esse texto foi feito especialmente para você, portanto, leia com muita atenção.

Se para você, frequentar o site da Folha, Exame e Estadão PME é um hábito, então você também já deve ter reparado que todas as semanas são noticiados textos destacando algum empresário de sucesso que saiu do nada e alcançou a fortuna repentina seguindo algumas características que parecem ser invariáveis para todos os líderes existentes.

Também é comum ver algum texto ressaltando o extravagante fato de como importantes CEO’s, como Bill Gates, Steve Jobs e mais recentemente Mark Zuckerberg, conseguiram alcançar o topo dos negócios sem nunca terem cursado uma faculdade.

Notícias assim são corriqueiras, concorda?

Esses textos, claramente tendenciosos, descarregam sobre o pobre leitor desinformado uma infinidade de características que essas pessoas têm em comum, e que se você segui-las fielmente, como o texto dá a entender, o sucesso será apenas uma questão de tempo.

Seguir os fatores mencionados (não preciso fazer nenhuma faculdade, eles também não fizeram) são as CAUSAS que geram a CONSEQUÊNCIA de alcançar o sucesso. Simples assim.

Não dá para negar que tais textos cumprem exatamente com o seu objetivo proposto, que é o de transformar um simples acaso, em que muitas vezes o fator sorte é mais responsável pelo sucesso do que qualquer outra característica excêntrica, em uma narrativa perfeita, sempre com um final feliz, onde o sucesso só foi alcançado devido ao fato desses personagens terem seguido fielmente aquelas características que foram descritas no texto.

O cemitério dos esquecidos

É dessa forma que todos ficam satisfeitos com o matéria, o leitor fica feliz por perceber que ele também poderá alcançar a fama repentina nos negócios, o jornalista fica feliz porque o leitor fica feliz e o dono do site fica feliz porque jornalista feliz e leitor feliz é garantia de retorno garantido.

Entretanto, sequer passa pela cabeça desses leitores os inúmeros casos de empresários, ou de qualquer outra coisa que seja, que seguiram EXATAMENTE as mesmas características propostas por esses textos, só que, todavia, acabaram por ficar no meio do caminho, sendo condenados ao completo abandono por parte da mídia. Essa parte da história ninguém conta.

Tal fato é descrito por Nassin Taleb, autor de A Lógica do Cisne Negro como “O cemitério dos esquecidos”, uma referência àquelas pessoas que, mesmo praticando o que a cartilha de bons costumes prega, não conseguem alcançar o seu objetivo proposto, o que quase sempre costuma ser o sucesso.

 

Vamos analisar como esse efeito age em outra esfera de atuação.

Recentemente, a UOL divulgou uma imensa reportagem falando sobre o sucesso da Liga de Futebol Alemã, descrevendo como ela conseguiu sair do completo esquecimento e em tão pouco tempo levar dois de seus times para a final da maior competição de clubes da Europa.

Uma explicação detalhada do sucesso eminente foi dada: investimento nas categorias de base, financiamento de empresas privadas, profissionalização da gestão, enfim, um passo a passo descritivo que chegou a impressionar.

Eis que um leitor, ao observar a quantidade de comentários elogiando a gestão alemã, comentou de uma forma bem inteligente, dizendo como as pessoas eram ingênuas por olhar somente os dois times vencedores (Bayer e Borussia), enquanto todo o resto dos times do Campeonato Alemão, que seguiam praticamente a mesma receita descrita na reportagem, estavam na mais pura miséria de títulos, sem falar no caos financeiro. Os esquecidos foram de fato, esquecidos.

Esse simples erro de interpretação acontece devido ao fato de desconhecermos histórias de pessoas ou de empresas que fracassaram, e mesmo que esses personagens viessem a escreve-las, dificilmente a mídia especializada como jornais e editoras se interessariam por elas.

Leitores não pagariam R$ 50,00 (preço médio de um livro de algum Super-Ceo) por uma história de fracasso, mesmo que fossem convencidos de que ela contivesse mais truques úteis do que uma história de sucesso.

O equívoco do Cemitério dos Fracassados atinge não somente textos jornalísticos, como também livros, palestras e conversas das mais variadas áreas, entender esse conceito melhorará CONSIDERAVELMENTE o seu senso crítico sobre as notícias divulgadas, fazendo com que você deixe de acreditar nessas narrativas mirabolantes.

Espero que da próxima vez que você ler algum texto sobre os fatores que lavaram Bill Gates, Steve Jobs ou o seu Joaquim da Padaria ao sucesso, você também seja capaz de lembrar-se da enormidade de desconhecidos que tentaram alcançar esses mesmos objetivos, fazendo exatamente as mesmas coisas, só que no entanto, terminaram sua história com um final muito mais triste do que planejaram.


Newslatter

Comentários

  1. A.A. diz:

    Não costumo fazer comentários – e nem lê-los. Gosto de preservar minha privacidade e evitar a fadiga de discussões que não levam a lugar algum.

    Abri esta exceção pois não estou vendo anúncios de monetização no seu blog. Conteúdo de qualidade, como este, merece ser pago e como não encontrei onde clicar para pagar-lhe, deixo um agradecimento pelo post.

    Grande abraço. Vejo futuro em você.
    A.H.

    1. Muito obrigado pelo elogio!

      Que grande perda você não ser adepto a discussões nos comentários, pois pelo que deu para perceber, sua escrita é perfeita e suas opiniões seriam de grande valia.

      Seu comentário ainda me fez lembrar de um estudo científico que constatou que os comentários feitos em blogs e sites de notícias são responsáveis por distorcer a compreensão dos leitores sobre o conteúdo informado, segue o link:

      http://blogs.estadao.com.br/link/o-efeito-da-baixaria/

      A verdade é que ainda não me passa pela cabeça faturar com o conteúdo desse blog, pelo menos não diretamente com anúncios.

      Grande abraço e Não deixe de assinar o feed de notícias do blog…

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