Tragédias e Gestão de Empresas: aprendizados sobre o caso de Santa Maria


Antes de começar, gostaria de explicar que minha intenção com esse texto não é a de explorar ainda mais a tragédia ocorrida em Santa Maria que ocasionou a morte de mais de 200 pessoas, esse objetivo já está sendo bem cumprido por nossa imprensa sensacionalista.

Também não vou explorar a sucessão de falhas administrativas que ocorreram, pois estas já foram muito bem explicadas em uma reportagem da Folha.

Minha intenção com esse texto é analisar os fatos sob a ótica dos comerciantes da região para que assim, quem sabe, conseguir provocar uma profunda reflexão em todos os administradores que estão aqui lendo.

Também gostaria de pedir para que deixassem de lado o preconceito pelo fato de eu estar discutindo sobre negócios em um momento tão frágil como esse, mas o fato é que lições como essa merecem ser discutidas por nós gestores, afinal, todos nós podemos passar por situações iguais a essa algum dia.

O caso Santa Maria

Imagine uma funerária ou mesmo uma floricultura de uma pacata cidade, acostumada a receber poucos telefones por semana, quando de repente, em mais um final de semana que tinha tudo para ser comum, se depara com uma centena de famílias desesperadas a procura de seus serviços e produtos.

A demanda é enorme, como nunca antes vista por seus donos. O telefone não para de tocar, no entanto, do outro lado da linha não está um pedido comum, não é uma morte já esperada, ocasionada por alguma doença antiga, trata-se de uma tragédia de âmbito nacional, uma das maiores da história no país envolvendo casas noturnas.

Imagine você como dono de um desses negócios, como agiria em uma situação emergencial como essa?

Em outra ocasião, em um texto chamado Caixa cheio, negócio vazio, abordei o caso do dono de um posto de gasolina que, aproveitando o fato de que a cidade em que comercializava seu produto estava enfrentando uma crise na distribuição de petróleo e que o seu posto era o único da cidade que havia o produto disponível, resolveu aumentar o preço de sua gasolina em 10 vezes, o que ocasionou a ira da população.

Esse empresário, aproveitando-se da lei de oferta e demanda, a mais básica da economia, deixou de analisar outras variáveis que envolvem uma situação delicada como essa e acabou afundando a imagem que seu posto havia construído na cidade. Pouco tempo depois, esse mesmo empresário teve que fechar suas portas por falta de clientes.

demanda-oferta-equilibrio_image009.gifOferta x Demanda : parece tão fácil, não é mesmo?

O que quero dizer, e pode até parecer absurdo, é que casos como esse ainda acontecem. Empresários mal informados (ou mal intencionados), praticantes do extremo capitalismo, que visam somente o lucro no curto prazo, “crescem os olhos” em situações como essa e se deixam levar pelo dinheiro fácil. Não percebem que o maior prejudicado por sua falta de visão é a sua própria empresa.

Creio que os verdadeiros gestores analisariam a situação e pensariam no longo prazo, abrindo mão do lucro fácil advindo de uma demanda explosiva. Pensariam no processo da construção da marca da sua empresa e traçaria estratégias para fazer isso acontecer.

Poderiam facilitar os pagamentos, ajudar nos preparativos do enterro, tranquilizando assim a família, fazer parcerias com floriculturas, organizar doações, enfim, as possibilidades são várias!

A propósito, os verdadeiros gestores deveriam até ter um plano B previamente traçado para ser usado em caso de tragédias como essa, por mais que esse acontecimento fuja totalmente da normalidade. Talvez até uma simples checklist já seria algo de bom tamanho.

Aos administradores fica o alerta, já imaginaram o seu negócio tendo que se deparar com uma demanda explosiva? Como você agiria? Fruto de uma tragédia ou não, vale a pena parar e fazer uma reflexão.


Newslatter

Comentários

  1. […] Tão mais interessante, e enriquecedor, seria, por exemplo, se a sala tivesse estudado um estudo de caso analisando as consequências e atitudes a serem tomadas pelos administradores no incêndio ocorrido na Boate Kiss, que não por acaso me fez escrever um texto sobre. […]

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